
O El Niño é um fenômeno climático bastante estudado que influencia o tempo em várias partes do mundo
Especialistas já preveem, com boa margem de certeza, que ele deve voltar na segunda metade de 2026. No entanto, ainda é cedo para afirmar com segurança se será forte, muito forte ou apenas moderado. Muitas notícias recentes falam em um “super El Niño? com secas devastadoras na Amazônia ou enchentes históricas no Sul, mas essas afirmações misturam fatos comprovados com especulações. Vamos entender melhor o que é baseado em evidências científicas e o que ainda é palpite.
O El Niño acontece quando as águas do Oceano Pacífico tropical, na região equatorial do centro-leste, ficam mais quentes do que o normal. Ele faz parte de um ciclo maior chamado El Niño-Oscilação Sul (ENOS). O oposto é a La Niña, quando essas mesmas águas esfriam. Esse aquecimento altera os ventos, as correntes marítimas e a distribuição de chuvas e temperaturas em todo o planeta.
O nome “El Niño? veio de pescadores peruanos e equatorianos do século XIX. Eles notavam que, por volta do Natal, as águas esquentavam tanto que os peixes sumiam, prejudicando a pesca. Por isso, chamavam o evento de “El Niño”, em referência ao Menino Jesus. Décadas depois, cientistas como Gilbert Walker descobriram que o fenômeno estava ligado a mudanças na pressão atmosférica e nos ventos do Pacífico. A partir dos anos 1980, especialmente após o forte El Niño de 1982-83, os estudos se aprofundaram.
Hoje, agências como a NOAA, dos Estados Unidos, monitoram o oceano com precisão. Segundo elas, há cerca de 60% de chance de o El Niño começar entre maio e julho de 2026, e mais de 90% de probabilidade a partir da primavera, em setembro. Ou seja, é quase certo que ele vai se formar na segunda metade do ano. O que ainda não dá para prever com confiança é a intensidade: atualmente, as chances de ser forte ou muito forte estão em torno de 25% cada.
Os modelos científicos conseguem prever o desenvolvimento do fenômeno com alguns meses de antecedência e estimar seus efeitos principais. Previsões mais detalhadas, porém, só ficam confiáveis de um a três meses antes. Por isso, falar agora sobre secas extremas ou enchentes catastróficas para 2026-2027 ainda é prematuro e, em muitos casos, sensacionalista.
O El Niño não causa desastres diretamente. Ele apenas aumenta ou diminui a probabilidade de eventos extremos. No Brasil, por exemplo, costuma trazer mais chuvas para o Sul e o litoral do Peru e do Equador, enquanto deixa a Amazônia e o Nordeste mais secos. Também favorece ondas de calor no Centro do país e reduz o número de furacões no Atlântico Norte. As temperaturas globais tendem a subir durante esses períodos.
Histórico mostra que grandes secas na Amazônia coincidiram com El Niños fortes em anos como 1877-79, 1983, 1998, 2015-16 e 2023-24. Mas nem toda seca vem do El Niño. Em 1963, 2005 e 2012, por exemplo, outros fatores, como o aquecimento das águas do Atlântico Norte, tiveram papel importante. Da mesma forma, enchentes no Sul podem acontecer mesmo sem ele, embora o fenômeno aumente as chances.
Os impactos dependem não só da força do El Niño, mas também da vulnerabilidade das pessoas e das medidas de prevenção. Incêndios na Amazônia e no Pantanal em 2023-2024, por exemplo, foram agravados pela combinação de seca, calor e vegetação seca. A morte de centenas de botos no Amazonas também esteve ligada ao estresse térmico. No Rio Grande do Sul, enchentes graves ocorreram recentemente, mas a preparação das cidades e o apoio à população são fundamentais para reduzir danos.
Para o período 2026-2027, o importante é acompanhar as atualizações das instituições confiáveis. Previsões sazonais para os próximos meses ainda não mostram influência clara do El Niño nas chuvas do Brasil. Além disso, a intensidade do fenômeno nem sempre determina a gravidade dos efeitos: episódios mais fortes costumam ampliar os padrões, mas não garantem catástrofes.
Em resumo, a ciência oferece ferramentas sólidas para monitorar e se preparar. O que falta é separar o que já tem base confiável do que é mera especulação. Manter o monitoramento contínuo, atualizar estudos antigos considerando as mudanças climáticas e investir em prevenção são as melhores formas de lidar com o El Niño que está por vir. Assim, podemos transformar conhecimento em ações que protejam a população e o meio ambiente.
Publicado em 21/05/2026 22h04
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