Astronomos mapeiam um dos maiores gigantes do Universo escondido atras da Via Láctea

Uma ilustração em 3D mostrando o tamanho do Superaglomerado Vela em comparação com outros aglomerados de galáxias. (Crédito da imagem: Dr. Jérôme Léca/RSA Cosmos/SARAO)

#Superaglomerado 

Astrônomos conseguiram, pela primeira vez, mapear com detalhes um dos maiores conjuntos de galáxias do universo, uma estrutura gigantesca que ficou praticamente invisível durante décadas por causa de uma região especial da nossa galáxia

Chamada de Superaglomerado de Vela, essa enorme formação cósmica agora revela seu verdadeiro tamanho impressionante e ganha um lugar entre as maiores estruturas conhecidas no cosmos.

Tudo começou em 2016, quando o superaglomerado foi descoberto. Ele fica a cerca de 800 milhões de anos-luz da Terra, mas está escondido exatamente atrás da chamada “Zona de Evitação? da Via Láctea. Essa zona é uma faixa do céu que cobre até 20% da visão noturna e é bloqueada pelo denso disco da nossa própria galáxia, cheio de estrelas, poeira e gás. Essa barreira torna quase impossível observar o que existe do outro lado usando telescópios comuns de luz visível. Por isso, durante anos, o Vela permaneceu como um mistério, com sua extensão real desconhecida.

Agora, um novo estudo publicado em março de 2026 mudou isso. Os pesquisadores usaram uma combinação inteligente de dados antigos e novas observações para mapear a estrutura. Eles analisaram mais de 65 mil medições de distâncias de galáxias e acrescentaram cerca de 8 mil novas observações de redshift – um método que mede o quanto a luz das galáxias foi esticada pela expansão do universo, revelando sua velocidade e posição. O destaque ficou por conta de cerca de 2 mil medições feitas pelo telescópio MeerKAT, na África do Sul. Esse instrumento capta ondas de rádio vindas das nuvens de hidrogênio dentro das galáxias, conseguindo “enxergar? através da poeira da Via Láctea onde a luz comum não passa.

Os resultados são impressionantes. O Superaglomerado de Vela tem cerca de 300 milhões de anos-luz de diâmetro – algo como 3 mil vezes a largura da Via Láctea. Ele contém matéria equivalente a cerca de 30 quatrilhões de sóis e é formado por pelo menos 20 aglomerados de galáxias, cada um com centenas ou milhares de galáxias ligadas pela gravidade. A massa está concentrada principalmente em dois núcleos centrais que se movem um em direção ao outro. Os cientistas ficaram empolgados ao confirmar que se trata de uma estrutura coesa e gigante, comparável às maiores conhecidas no universo próximo.

Para se ter uma ideia do tamanho, o Vela é mais massivo que o superaglomerado Lani”kea – aquele que inclui nossa Via Láctea e a Terra – e fica logo atrás do famoso Superaglomerado de Shapley, considerado um dos maiores. Outras estruturas ainda maiores existem, como a Grande Parede de Hércules-Coroa Borealis, mas elas são formadas por vários superaglomerados reunidos.

Os pesquisadores, liderados por especialistas como Renee Kraan-Korteweg, da Universidade da Cidade do Cabo, deram à estrutura um novo nome carinhoso: Vela-Banzi. Na língua xhosa, falada por povos indígenas da África do Sul, isso significa algo como “revelando amplamente”, em homenagem aos telescópios usados no estudo e à descoberta que finalmente trouxe luz ao que estava escondido.

Essa conquista não é só uma curiosidade astronômica. Entender o tamanho e o movimento dessas estruturas gigantes ajuda os cientistas a testar e refinar os modelos do universo, confirmando como a matéria se organiza em escalas cósmicas. No futuro, telescópios de rádio ainda mais potentes devem permitir mapas ainda mais precisos. Mesmo assim, parte do Vela provavelmente continuará um pouco velada, pois nem todas as galáxias têm grandes nuvens de hidrogênio visíveis em rádio.

O que parecia um vazio escuro atrás da nossa galáxia agora se revela como um dos titãs do cosmos. Essa descoberta mostra como a tecnologia e a persistência científica conseguem superar barreiras naturais do espaço, abrindo uma janela nova para entender melhor o lugar que ocupamos no vasto universo. O céu, que já parecia cheio de segredos, acaba de revelar mais um de seus gigantes escondidos.


Publicado em 28/04/2026 02h05


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