O mistério da água desaparecida de marte ganha um rumo inesperado

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doi.org/10.1038/s43247-025-03157-5
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#Marte 

Marte já teve muita água no passado distante – rios, lagos e talvez até oceanos cobriam boa parte de sua superfície

Imagens diárias do mapa global MRO-MARCI mostrando o crescimento inicial de uma rara tempestade de poeira regional no noroeste de Syrtis Major, observada em 21 de agosto de 2023, em Ls = 107,6° (esquerda) e em 22 de agosto de 2023, em Ls = 108,0° (direita), atingindo uma extensão de 1,2 × 10? km². Crédito: Brines, Aoki et al., 2026, Communications: Earth & Environment

Hoje, o planeta é um deserto frio e seco, e os cientistas sabem que boa parte dessa água foi perdida para o espaço ao longo de bilhões de anos. A forma mais comum de perda acontece quando o vapor d”água sobe até as camadas altas da atmosfera, onde a radiação solar quebra as moléculas, liberando hidrogênio que escapa para o espaço.

Por muito tempo, os pesquisadores acreditavam que esse processo acontecia principalmente durante o verão no hemisfério sul de Marte, quando grandes tempestades de poeira globais aqueciam a atmosfera e agitavam tudo, levando o vapor d”água para altitudes elevadas. O verão no hemisfério norte era visto como uma época bem menos importante para essa perda de água.

Agora, uma nova pesquisa muda bastante essa visão. Uma equipe internacional de cientistas descobriu que uma tempestade de poeira intensa, mas regional (e não global), ocorrida durante o verão no hemisfério norte, conseguiu transportar quantidades surpreendentemente grandes de vapor d”água para a parte alta da atmosfera. Isso provocou um aumento significativo na fuga de hidrogênio para o espaço – algo que ninguém esperava naquela estação do ano.

Os pesquisadores observaram esse evento no ano marciano 37 (que corresponde a 2022-2023 na Terra). Uma tempestade localizada na região noroeste de Syrtis Major cresceu rapidamente, alcançando uma área enorme, e levou o vapor d”água a alturas onde ele normalmente não chega em tanta quantidade. As medições mostraram concentrações de água até dez vezes maiores do que o habitual na atmosfera média, e os níveis de hidrogênio na parte mais alta da atmosfera chegaram sendo 2,5 vezes maiores do que nos anos anteriores na mesma época.

Diagrama ilustrando a resposta atmosférica a uma tempestade de poeira localizada no Hemisfério Norte durante o verão local. Altas concentrações de poeira aumentam significativamente a absorção da radiação solar, levando a um maior aquecimento atmosférico, especialmente na atmosfera média. Além disso, o aumento da circulação atmosférica associado à tempestade de poeira intensifica o transporte vertical de vapor de água da baixa atmosfera, promovendo a injeção de água em altitudes mais elevadas e aumentando a liberação de hidrogênio da exobase. Crédito: Brines, Aoki et al., 2026, Communications: Earth & Environment.

Esse achado é importante porque mostra que tempestades de poeira mais curtas e localizadas – e não só as gigantescas que cobrem o planeta inteiro – podem ter um papel relevante na perda gradual da água de Marte. Durante bilhões de anos, esses episódios “fora da curva? ajudaram a secar o planeta de forma mais significativa do que os modelos climáticos anteriores previam.

Como destacou um dos autores principais, Adrián Brines, essa descoberta revela o impacto desse tipo de tempestade na evolução do clima marciano e abre um novo caminho para entender como Marte perdeu tanta água ao longo do tempo. Outro coautor, Shohei Aoki, reforçou que esses eventos curtos, porém intensos, são uma peça essencial no quebra-cabeça incompleto da história hídrica do planeta vermelho.

Com essa nova evidência, os cientistas agora percebem que a perda de água em Marte não se limitava a uma única estação ou a tempestades globais. Pequenos (ou nem tão pequenos) eventos regionais também fizeram diferença, ajudando a explicar por que o planeta que um dia teve água líquida em abundância se transformou no deserto árido que conhecemos hoje.


Publicado em 23/02/2026 18h57


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