
doi.org/10.1038/s41550-026-02882-x
Credibilidade: 989
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Astrônomos conseguiram finalmente decifrar um dos mistérios mais intrigantes do universo: sinais de rádio que se repetem de forma estranha, vindos do espaço profundo
Esses sinais, chamados de transientes de longo período, foram rastreados até um sistema binário de estrelas onde uma delas age como uma “vampira”, sugando lentamente a matéria da sua companheira. Essa descoberta, publicada na revista Nature Astronomy, pode ser a chave para entender uma classe inteira de emissões cósmicas que intrigam os cientistas há anos.
Tudo começou com observações do telescópio ASKAP, na Austrália, que detectou pulsos de rádio fortes vindos de uma direção específica do céu. Diferente dos famosos “fast radio bursts”, que duram apenas milissegundos, esses sinais se repetem a cada poucas horas ou minutos, com cada explosão durando alguns segundos. Por muito tempo, ninguém soube explicar sua origem. Alguns pensavam em pulsares girando lentamente ou em outros fenômenos exóticos, mas as teorias não se encaixavam bem.
Agora, os pesquisadores identificaram a fonte como o sistema ASKAP J1745-5051. Nele, uma anã branca – o que sobra de uma estrela similar ao Sol depois de esgotar seu combustível, com o tamanho da Terra mas a massa do Sol – orbita uma estrela anã vermelha menor. As duas estão tão próximas que completam uma volta completa em apenas cerca de 1,3 hora. A anã branca, com sua forte gravidade, puxa material da companheira, criando um processo de “acrecção”. Esse material espirala em direção à anã branca, aquece-se intensamente e gera emissões de raios X. Ao mesmo tempo, as interações entre os campos magnéticos das estrelas e o material carregado de eletricidade produzem os pulsos de rádio regulares.
É como se a estrela menor estivesse sendo devorada aos poucos pela maior e mais densa. Os astrônomos comparam isso a um vampiro cósmico. Os sinais de rádio não são constantes: eles variam de intensidade, mudam de frequência e até param por algumas horas. Os raios X também seguem um padrão similar, ligado ao movimento orbital das estrelas. Isso mostra que tanto a emissão de rádio quanto a de raios X estão diretamente conectadas à dança entre as duas estrelas.
Essa observação é importante porque fortalece a ideia de que pelo menos parte desses transientes de longo período vêm de sistemas binários de anãs brancas, especialmente as chamadas variáveis cataclísmicas magnéticas. Antes, alguns desses sinais foram associados a anãs brancas isoladas, mas agora há evidências claras de que a interação entre estrelas, com transferência de matéria, é fundamental para gerar essas explosões de energia.
Os cientistas usaram uma combinação impressionante de instrumentos para chegar a essa conclusão: além do ASKAP, contaram com o telescópio ATCA e o MeerKAT (para rádio), telescópios ópticos no Chile como SOAR e Magellan, e observatórios espaciais como Swift e Einstein Probe para captar os raios X. A espectroscopia óptica confirmou as linhas de emissão típicas de um sistema que está transferindo matéria ativamente.
Essa descoberta não só resolve um enigma de quase 20 anos como abre portas para entender melhor como estrelas morrem, interagem e geram diferentes tipos de radiação no universo. Pode haver muitos outros sistemas semelhantes por aí, ajudando os astrônomos a mapear melhor a população de objetos compactos e binários magnéticos na Via Láctea.
Em resumo, o que parecia um sinal aleatório e misterioso do cosmos revelou-se o resultado de um drama estelar fascinante: uma estrela vampira devorando sua parceira aos poucos, liberando energia em forma de ondas de rádio e raios X que chegam até nós após viajar por milhares de anos-luz. É mais uma prova de como o universo é dinâmico, violento e cheio de surpresas que só agora estamos começando a compreender. Essa “pedra de Roseta” celestial vai ajudar a decifrar muitos outros sinais semelhantes no futuro.
Publicado em 06/06/2026 04h02
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