Uma nova forma inteligente de medir o universo com estrelas que explodem

Representação artística de uma explosão de supernova. Crédito: Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA / ESA / Hubble / L. Calcada

doi.org/10.1038/s41550-026-02842-5
Credibilidade: 989
#Supernova 

Astrônomos encontraram uma maneira mais inteligente e poderosa de estudar o Universo usando supernovas, aquelas explosões impressionantes de estrelas

Uma equipe internacional liderada por cientistas do Instituto de Ciências do Cosmos da Universidade de Barcelona (ICCUB) desenvolveu um novo método que pode extrair muito mais informações desses eventos cósmicos, ajudando a entender melhor como o Universo se expande e o que é a misteriosa energia escura.

As supernovas do tipo Ia acontecem quando anãs brancas, que são estrelas já mortas e compactas, acumulam material e explodem de forma violenta. Essas explosões têm um brilho quase sempre parecido, o que permite aos cientistas tratá-las como “velas padrão”. Ao comparar o brilho real esperado com o que observamos da Terra, é possível calcular distâncias enormes no espaço. Esse método foi fundamental para descobrir que a expansão do Universo está acelerando, um fenômeno ligado à energia escura, um dos maiores enigmas da física atual.

No entanto, nem todas as supernovas são exatamente iguais. Nos últimos 20 anos, os pesquisadores perceberam que o brilho delas é influenciado pelo ambiente: galáxias mais velhas ou mais massivas podem fazer as explosões parecerem um pouco diferentes das que ocorrem em galáxias jovens ou menores. Até agora, as correções para esses efeitos eram relativamente simples e aproximadas, o que limitava a precisão das medições cósmicas.

O novo framework, chamado CIGaRS, muda isso completamente. Em vez de analisar cada fator isoladamente, ele cria um modelo único e consistente que une vários elementos: as próprias explosões das supernovas, as galáxias que as hospedam, a poeira interestelar que escurece e avermelha a luz, a frequência com que essas explosões acontecem ao longo da história do Universo e a própria expansão cósmica. Tudo isso é conectado por relações físicas e estatísticas.

Para tornar isso possível, os cientistas usam uma abordagem moderna chamada inferência baseada em simulações, combinada com inteligência artificial. Eles criam milhares de universos simulados no computador, baseados em modelos físicos. Uma rede neural (um tipo de IA) aprende as conexões entre o que é observado e os parâmetros reais do Universo. Depois de treinada, essa IA consegue analisar dados reais de forma eficiente, processando dezenas de milhares de supernovas ao mesmo tempo – algo impossível com os métodos tradicionais.

Um dos resultados mais importantes é a capacidade de medir distâncias precisas (o chamado redshift) usando apenas imagens, sem precisar de observações espectroscópicas caras e demoradas. O redshift mostra quanto a luz das galáxias foi esticada pela expansão do Universo, revelando tanto a distância quanto o tempo que estamos olhando para o passado. Essa precisão se aproxima da obtida com espectros, o que é uma grande vantagem.

Isso prepara o terreno para o futuro próximo da astronomia. O Observatório Vera C. Rubin, em construção no Chile, vai realizar uma pesquisa de 10 anos do céu e detectar um número enorme de supernovas. Quase 99% delas serão observadas apenas por imagens em diferentes cores (fotometria), sem acompanhamento espectroscópico. O CIGaRS foi projetado exatamente para aproveitar ao máximo esse volume gigantesco de dados, evitando simplificações que podem introduzir erros.

Além de refinar as medidas de energia escura, o método ajuda a entender melhor como e quando as supernovas do tipo Ia se formam. Ao reconstruir as taxas de explosão em função da idade das estrelas nas galáxias, os pesquisadores podem investigar questões antigas sobre os sistemas estelares responsáveis por essas explosões.

Os autores estimam que essa abordagem pode melhorar as restrições cosmológicas em até quatro vezes em comparação com os métodos atuais, que dependem de um número menor de supernovas com dados espectroscópicos. Combinar modelagem física detalhada com inteligência artificial resolve fraquezas importantes nas análises cosmológicas de hoje.

Com ferramentas como o CIGaRS, os cientistas estarão melhor preparados para interpretar os dados revolucionários que o Observatório Rubin trará, avançando nosso conhecimento sobre a estrutura, a evolução e os mistérios mais profundos do Universo. Esse é um passo empolgante que torna a cosmologia mais precisa e acessível a partir de observações que logo estarão ao nosso alcance.


Publicado em 31/05/2026 18h23


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