
doi.org/10.1038/s41467-025-67530-w
Credibilidade: 989
#Caçadores de baleias
Há cerca de 5 mil anos, comunidades indígenas que viviam no sul do Brasil já caçavam baleias de grande porte na região da Baía da Babitonga, em Santa Catarina
Essa descoberta surpreendente mostra que esses povos usavam ferramentas especializadas e estratégias coordenadas em grupo, mil anos antes do que se acreditava ser o início da caça à baleia em grande escala no Hemisfério Norte.
Os sambaquis – grandes montes de conchas construídos por essas sociedades costeiras – guardavam centenas de ossos de baleias com marcas de cortes, indicando que os animais eram abatidos e processados pelos humanos. Entre as espécies identificadas estão a baleia-franca-austral, a jubarte, a azul, a sei, a cachalote e até golfinhos. Os pesquisadores encontraram também arpões de osso de baleia, alguns dos maiores já descobertos na América do Sul, e partes desses arpões foram achadas até mesmo em contextos de sepultamentos humanos.
Essa evidência muda uma visão que os cientistas mantinham há muito tempo: a de que as sociedades costeiras da América do Sul eram basicamente coletoras de mariscos e pescadoras, sem práticas avançadas de caça a grandes cetáceos. Agora, fica claro que os povos sambaqui possuíam conhecimento técnico, organização social e estratégias especializadas para caçar baleias no mar, e não apenas aproveitavam animais encalhados na praia.
O estudo, liderado por pesquisadores da ICTA-UAB (Espanha) em parceria com cientistas brasileiros, analisou ossos e ferramentas preservados no Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville. Graças a técnicas avançadas de identificação molecular, foi possível confirmar as espécies e entender melhor o estilo de vida desses antigos habitantes.
Além de revelar uma história rica e complexa sobre as sociedades indígenas do litoral brasileiro, a pesquisa traz insights importantes sobre o passado dos oceanos. Ela sugere, por exemplo, que algumas baleias, como as jubartes, frequentavam águas mais ao sul no passado e que seu retorno recente à região pode ser parte de um processo natural de recolonização.
Essa nova perspectiva transforma a imagem dos povos sambaqui: eles não eram apenas coletores, mas também caçadores de baleias habilidosos, cuja prática contribuiu para sua presença densa e duradoura ao longo da costa brasileira por milhares de anos. Os resultados foram publicados na revista Nature Communications e destacam o enorme valor das coleções arqueológicas guardadas em museus, especialmente num momento em que muitos sítios originais desapareceram por causa do crescimento urbano.
Publicado em 29/03/2026 20h01
Estudo original:

