
doi.org/10.1051/0004-6361/202558284
Credibilidade: 989
#Gamma Cassiopeiae
A estrela Gamma Cassiopeiae, conhecida como – Cas, é uma das mais brilhantes do céu noturno e pode ser vista a olho nu na constelação de Cassiopeia, formando parte do famoso “W”
Há mais de 50 anos, desde 1976, ela intriga os astrônomos por emitir raios X extremamente intensos – cerca de 40 vezes mais fortes do que os de estrelas semelhantes de grande massa. Esses raios X são gerados por um plasma a temperaturas superiores a 100 milhões de graus e variam rapidamente, o que não se encaixava no comportamento esperado de uma estrela comum.
Gamma Cassiopeiae é uma estrela do tipo Be: uma estrela massiva, que gira muito rápido e ejeta material periodicamente, formando um disco ao seu redor. Esse disco é visível no espectro óptico e foi o que chamou atenção pela primeira vez em 1866, quando ela se tornou a primeira estrela Be identificada. Mas o enigma estava nos raios X: de onde vinham exatamente? Algumas teorias sugeriam que eram produzidos na própria estrela ou em seu disco, por meio de processos magnéticos. Outras apontavam para um possível companheiro invisível, como uma anã branca, uma estrela de nêutrons ou algo semelhante.
Durante décadas, os cientistas observaram o sistema com diferentes telescópios espaciais. Observações anteriores já haviam descartado algumas hipóteses, como a presença de uma estrela de nêutrons ou de uma estrela “pelada”. Restava a dúvida entre uma origem na própria estrela Be ou em um companheiro compacto.
Agora, o mistério foi finalmente resolvido graças a observações precisas feitas pelo telescópio japonês XRISM, usando o instrumento Resolve – um microcalorímetro de alta resolução que permite analisar os raios X com grande detalhe. Uma campanha de observação realizada em dezembro de 2024, fevereiro e junho de 2025 acompanhou todo o período orbital do sistema, que dura 203 dias.
Os novos dados revelaram que os raios X não vêm da estrela principal nem de seu disco, mas de um companheiro pequeno e denso: uma anã branca magnética que orbita Gamma Cassiopeiae. O espectro mostrou que as velocidades do plasma quente mudavam conforme o movimento orbital da anã branca, e não da estrela Be. Isso é a primeira evidência direta de que o plasma ultraquente está associado ao companheiro compacto.
A anã branca possui um campo magnético forte o suficiente para interromper o disco de material que flui da estrela maior. Esse material é direcionado para os polos da anã branca, onde cai e se aquece violentamente, emitindo os raios X observados. Parte dessa radiação ainda é refletida pela superfície da anã branca. O alargamento moderado das linhas espectrais (cerca de 200 km/s) confirma esse cenário de acreção magnética.
Essa descoberta confirma a existência de uma classe de sistemas binários formada por uma estrela Be e uma anã branca magnética, algo que os modelos teóricos previam, mas que nunca havia sido observado de forma tão clara. Estima-se que cerca de 10% das estrelas Be massivas possam pertencer a esse tipo de sistema.
A pesquisa, liderada por Yaël Nazé, da Universidade de Liège, junto com outros cientistas como Masahiro Tsujimoto, Gregor Rauw e Sean J. Gunderson, foi publicada em 24 de março de 2026 na revista “Astronomy & Astrophysics”. Além de resolver um enigma de meio século, o resultado obriga os astrônomos a revisar modelos de evolução estelar binária, especialmente quanto à transferência de massa entre as estrelas, e abre novas portas para estudar ondas gravitacionais e outras interações em sistemas semelhantes.
Como resumiu Yaël Nazé, resolver esse mistério abre caminhos para novas pesquisas nos próximos anos. O que parecia um segredo escondido por uma estrela brilhante agora revela a dança complexa de duas estrelas invisivelmente ligadas.
Publicado em 26/03/2026 00h07
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