
doi.org/10.1126/science.adt2760
Credibilidade: 999
#QT45
Uma das grandes teorias sobre como a vida começou na Terra é a hipótese do mundo de RNA
Ela sugere que, no início, antes de existirem células complexas com DNA e proteínas, moléculas de RNA foram as primeiras a conseguir copiar a si mesmas, dando origem ao processo de evolução.
O RNA é parecido com o DNA, mas geralmente existe em forma de fita simples. Ele não armazena informações tão bem quanto o DNA, porque é menos estável, mas tem uma vantagem incrível: pode se dobrar e funcionar como enzimas, acelerando reações químicas. Por isso, há décadas os cientistas imaginam que moléculas de RNA capazes de catalisar sua própria cópia poderiam ter sido o ponto de partida da vida.
O problema é que encontrar ou criar um RNA assim sempre foi muito difícil. Os pesquisadores achavam que essas moléculas precisariam ser grandes e complexas para se replicar, mas moléculas grandes são difíceis de copiar e improváveis de surgir sozinhas na sopa química da Terra primitiva. Moléculas curtas, por outro lado, surgem mais facilmente, mas ninguém conseguia provar que elas teriam capacidade suficiente para replicação.
Agora, uma equipe liderada por Philipp Holliger, do Laboratório de Biologia Molecular do Conselho de Pesquisa Médica no Reino Unido, mudou isso. Eles criaram um RNA surpreendentemente pequeno, com apenas 45 nucleotídeos (as “letras? que formam o RNA), batizado de QT45 – algo como “Bem Pequeno 45”.
Começaram gerando trilhões de sequências aleatórias curtas (de 20 a 40 nucleotídeos) e selecionaram as que conseguiam realizar reações básicas, como juntar pedaços de RNA. Depois, uniram essas sequências promissoras e as submeteram a várias rodadas de evolução em laboratório: mudavam partes aleatoriamente e escolhiam as versões que funcionavam melhor.
O resultado foi o QT45. Em condições especiais – água alcalina ligeiramente acima do ponto de congelamento, semelhante a ambientes gelados com atividade geotérmica, como na Islândia antiga “, essa molécula usa uma fita de RNA como molde para construir a fita complementar, juntando pequenos pedaços de dois ou três nucleotídeos. Ela consegue fazer uma cópia fiel de sua própria sequência complementar.
Mais impressionante ainda: o QT45 também usa essa fita complementar como molde para produzir cópias de si mesmo. Isso significa que, pela primeira vez, um RNA demonstrou as duas reações essenciais para a autorreplicação: fabricar a fita oposta e, a partir dela, recriar a original.
Por enquanto, as duas etapas não acontecem ao mesmo tempo no mesmo recipiente, e o processo é lento e com baixo rendimento. Mas Holliger explica que isso não surpreende, já que é um sistema simples. A equipe planeja continuar evoluindo a molécula em laboratório e testar condições como ciclos de congelamento e descongelamento para ver se as duas reações podem ocorrer juntas.
O mais empolgante, segundo ele, é que, uma vez iniciada a replicação, o sistema se auto-otimiza. Erros na cópia geram variações, e as que funcionam melhor se multiplicam mais, iniciando uma espécie de seleção natural molecular.
Especialistas independentes elogiaram o avanço. Sabine Müller, da Universidade de Greifswald, na Alemanha, chamou os resultados de excepcionais e um grande passo rumo a um RNA totalmente autorreplicante. Zachary Adam, da Universidade de Wisconsin-Madison, destacou que encontrar uma sequência de 45 nucleotídeos com essas capacidades em meio a um número imenso de possibilidades mostra como ribozimas polimerases podem ser mais comuns do que se pensava.
No planeta primitivo, moléculas como o QT45 poderiam ter se replicado em ambientes com gelo, fontes termais e ciclos de congelamento-descongelamento, criando gradientes de pH favoráveis. Algum tipo de compartimento – como bolsões de água derretida no gelo ou vesículas formadas por ácidos graxos – ajudaria a manter os componentes juntos.
Essa descoberta reforça a ideia de que a vida pode ter surgido de forma simples, a partir de RNA pequeno e capaz de se copiar, abrindo caminho para formas mais complexas ao longo do tempo.
Publicado em 23/03/2026 21h04
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