O ‘oxigênio escuro’ no fundo do mar

Scientists discover ”black oxygen” at the bottom of the Pacific, which could rewrite the origin of life on Earth.

doi.org/10.3389/fmars.2025.1721853
Credibilidade: 989
#Ocanos 

Uma descoberta anunciada em 2024, que prometia revolucionar o entendimento da vida nos oceanos, está agora sob forte questionamento por cientistas especializados

O estudo original, publicado na revista Nature Geoscience, afirmava que os famosos nódulos polimetálicos – aquelas formações rochosas ricas em metais como manganês, cobalto e níquel, espalhadas pelo fundo do Oceano Pacífico na zona Clarion-Clipperton, a milhares de metros de profundidade – estariam produzindo oxigênio no completo escuro, sem qualquer ajuda da luz solar ou de organismos vivos. Chamaram esse fenômeno de “oxigênio escuro”.

A ideia era fascinante: esses nódulos atuariam como uma espécie de bateria natural, gerando diferença de potencial elétrico entre seus componentes metálicos e, com isso, quebrando moléculas de água por um processo chamado eletrólise, liberando oxigênio (e supostamente hidrogênio). Se confirmada, a descoberta mudaria conceitos básicos sobre como o oxigênio chega ao fundo do mar, onde tradicionalmente se pensava que só havia consumo por bactérias e animais, e ainda levantaria discussões sobre as origens da vida na Terra primitiva. Além disso, como esses nódulos são alvos de mineração submarina para extrair materiais usados em baterias e tecnologias verdes, o achado sugeria que retirar esses “batatas? do fundo poderia prejudicar ecossistemas de forma mais grave do que se imaginava.

Mas, em dezembro de 2025, um artigo de opinião publicado na Frontiers in Marine Science, assinado por oceanógrafos, geoquímicos e especialistas em eletroquímica, desmontou a tese com argumentos pesados. Eles apontam falhas graves nos experimentos: as câmaras usadas para medir o oxigênio no fundo do mar não foram adequadamente ventiladas ao chegar lá, o que pode ter prendido bolhas de ar ou oxigênio dissolvido da descida, liberando-os depois e falsificando os resultados. As concentrações iniciais de oxigênio dentro das câmaras variavam muito e já eram mais altas do que na água ao redor, algo que quebra regras básicas de experimentos desse tipo.

O golpe mais forte, porém, vem da física: a explicação dada viola as leis da termodinâmica. Separar água em oxigênio e hidrogênio exige uma quantidade enorme de energia – é uma reação que “sobe a ladeira? energeticamente e não acontece espontaneamente sem uma fonte clara e potente de energia. Os críticos destacam que nenhum mecanismo real foi demonstrado para fornecer essa energia, e o estudo nem mediu hidrogênio, que deveria aparecer em quantidades proporcionais se fosse eletrólise de verdade. Em resumo, a hipótese sugere que energia estaria surgindo do nada, o que é impossível segundo séculos de física e química estabelecidas.

Outros estudos anteriores, feitos com métodos semelhantes em áreas com nódulos, sempre registraram apenas consumo de oxigênio, nunca produção. Dados não publicados do próprio grupo original mostram aumento de oxigênio mesmo em testes sem nódulos, reforçando a suspeita de que tudo se trata de um erro experimental, provavelmente bolhas ou falhas nos sensores.

Os autores do estudo original, liderados pelo professor Andrew Sweetman, afirmam que estão preparando evidências adicionais e que uma resposta formal está em revisão na Nature Geoscience. Eles também anunciaram uma nova expedição ao local em 2026, com equipamentos mais avançados, para tentar esclarecer de vez o que está acontecendo. Enquanto isso, os críticos defendem que o artigo deveria ser retirado da literatura científica por falta de rigor e por propor algo fisicamente inviável.

A discussão segue acalorada. Por ora, a ideia de que o fundo do oceano produz oxigênio “no escuro? graças a nódulos metálicos enfrenta sérias objeções e, para muitos especialistas, parece mais um artefato de medição do que uma verdadeira revolução científica.


Publicado em 22/03/2026 09h32


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Estudo original:


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