
doi.org/10.3847/2041-8213/ae3ddc
Credibilidade: 989
#Exoplaneta
Astrônomos descobriram algo extraordinário em um sistema estelar localizado a cerca de 11 mil anos-luz da Terra: fortes indícios de que dois planetas colidiram de forma violenta, gerando uma enorme quantidade de poeira e rochas quentes que ainda hoje afetam a luz da estrela ao redor da qual orbitavam
A estrela, chamada Gaia20ehk, é semelhante ao nosso Sol e, por muito tempo, brilhava de maneira estável e previsível. No entanto, ao analisar dados antigos de telescópios, o estudante de astronomia Anastasios Tzanidakis, da Universidade de Washington, notou algo estranho. A partir de 2016, a luz da estrela apresentou três quedas de brilho, e por volta de 2021 o comportamento ficou completamente irregular e intenso – algo que estrelas como o Sol simplesmente não fazem.
Os pesquisadores perceberam que essas variações eram causadas por grandes quantidades de rochas e poeira passando na frente da estrela, bloqueando parte de sua luz visível. Ao mesmo tempo, observações no infravermelho mostravam o oposto: um aumento forte de brilho, indicando que o material estava muito quente e brilhando por conta própria. Isso sugere que, inicialmente, os dois planetas se aproximavam em uma espiral, sofrendo impactos rasantes que produziam pouco calor. Depois veio a colisão catastrófica principal, que liberou energia suficiente para aquecer toda aquela matéria.
Esse tipo de evento é raro de ser observado em tempo real. Os sistemas planetários se formam a partir de discos de gás e poeira ao redor de estrelas jovens, e nos primeiros milhões de anos o ambiente é caótico: planetas e protoplanetas colidem com frequência, se destroem ou são ejetados. Com o tempo, o sistema se estabiliza. Captar uma colisão assim exige sorte – o debris precisa estar alinhado entre nós e a estrela, e os telescópios precisam estar observando no momento certo. No caso de Gaia20ehk, vários instrumentos diferentes registraram o fenômeno exatamente quando a luz da colisão chegou até nós.
O que torna essa descoberta ainda mais fascinante é sua semelhança com um evento que provavelmente aconteceu no nosso próprio Sistema Solar há cerca de 4,5 bilhões de anos. Naquela época, um corpo do tamanho de Marte, chamado Teia, colidiu com a Terra jovem, ejetando material que mais tarde se uniu para formar a Lua. Aqui, o disco de debris orbita a estrela a mais ou menos a mesma distância que a Terra está do Sol (uma unidade astronômica). Com o tempo – talvez em alguns milhões de anos “, parte dessa poeira e rochas pode esfriar e se agrupar, formando algo parecido com um planeta e seu satélite.
Os cientistas destacam que a Lua desempenha papéis importantes para a vida na Terra: ela ajuda protegendo o planeta de asteroides, cria marés que misturam química e biologia nos oceanos e pode até influenciar a atividade tectônica. Entender com que frequência colisões como essa ocorrem em outras estrelas é fundamental para a astrobiologia – ou seja, para sabermos quão comuns são mundos habitáveis como o nosso.
Essa observação, publicada na revista “The Astrophysical Journal Letters”, mostra como o universo ainda nos reserva surpresas. No futuro, o novo Observatório Vera C. Rubin, no Chile, deve detectar até cerca de cem eventos semelhantes na próxima década, permitindo que os astrônomos estudem em detalhes como os planetas se formam e evoluem. Por enquanto, o caso de Gaia20ehk nos dá um raro vislumbre ao vivo de um processo violento que ajudou a moldar o nosso próprio lar no cosmos.
Publicado em 18/03/2026 02h29
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