Há 6,3 milhões de anos, algo colidiu com o Brasil

Cratera de impacto

doi.org/10.1130/G53805.1
Credibilidade: 989
#Meteoro 

Há cerca de 6,3 milhões de anos, no final da época do Mioceno, um objeto vindo do espaço atingiu a Terra com uma força tremenda em algum lugar da América do Sul, provavelmente no território que hoje é o Brasil

Esse impacto foi tão intenso que derreteu rochas da superfície, lançou material fundido para a atmosfera e criou milhares de fragmentos de vidro natural que se espalharam por uma vasta região. Cientistas brasileiros acabam de confirmar a descoberta desse campo de tektites – o primeiro já identificado no país “, revelando um evento cósmico que antes ninguém conhecia.

As tektites são pedaços de vidro formados naturalmente quando um meteorito ou cometa colide com o planeta em alta velocidade. O calor extremo derrete o solo ou as rochas locais, que são ejetadas para o alto, resfriam rapidamente no ar e caem de volta como gotas ou formas aerodinâmicas solidificadas. No Brasil, esses fragmentos receberam o nome de geraisites, em homenagem ao estado de Minas Gerais, onde foram encontrados pela primeira vez.

A pesquisa, liderada pelo geólogo Álvaro Penteado Crósta, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), envolveu cientistas do Brasil, Europa, Oriente Médio e Austrália. O estudo foi publicado na revista Geology em dezembro de 2025. Inicialmente, os pesquisadores localizaram as geraisites em três municípios do norte de Minas Gerais: Taiobeiras, Curral de Dentro e São João do Paraíso, numa faixa de cerca de 90 quilômetros. Depois da publicação inicial, novas amostras apareceram nos estados vizinhos da Bahia e, mais recentemente, do Piauí. Hoje, sabe-se que o campo se estende por mais de 900 quilômetros – um tamanho impressionante que cresce conforme mais buscas são feitas, algo comum em outros campos de tektites pelo mundo.

Até agora, a equipe coletou mais de 600 espécimes. Eles variam muito de tamanho: os menores pesam menos de 1 grama, enquanto o maior chegou a 85,4 gramas e cerca de 5 centímetros de comprimento. Suas formas lembram gotas, esferas, elipses, discos, halteres ou até torções – moldadas pela viagem aerodinâmica pela atmosfera enquanto ainda estavam quentes e maleáveis. À primeira vista, parecem pretos e opacos, mas sob luz forte ficam translúcidos e revelam um tom verde-acinzentado. A superfície é escura e cheia de pequenas cavidades, marcas de bolhas de gás que escaparam durante o resfriamento rápido, um sinal típico de tektites (diferente do que acontece com vidros vulcânicos comuns, como a obsidiana).

Testes químicos confirmam que esses materiais não são de origem terrestre comum. Eles são ricos em sílica (entre 70% e 74%), têm teores específicos de sódio e potássio, e traços de elementos como cromo e níquel que variam bastante, indicando que o solo derretido vinha de rochas diversas. Um detalhe decisivo é o baixíssimo teor de água: apenas 71 a 107 partes por milhão, medido por espectroscopia infravermelha – muito menos do que qualquer vidro vulcânico, que costuma ter de 700 ppm até 2%. Além disso, algumas amostras contêm lechatelierita, uma forma de sílica pura que só se forma em temperaturas altíssimas.

A datação, feita pelo método de argônio (“”Ar/³”Ar), aponta para cerca de 6,3 milhões de anos atrás, com resultados muito próximos em diferentes amostras (entre 6,33 e 6,78 milhões de anos). Isso indica um único evento de impacto. Os pesquisadores explicam que a idade de 6,3 milhões é considerada um limite máximo, pois parte do argônio pode ter vindo das rochas antigas atingidas.

Curiosamente, ainda não foi encontrado o cratera associada. Isso não é incomum: dos seis grandes campos de tektites conhecidos no mundo (na Australásia, Europa Central, Costa do Marfim, América do Norte e Belize), apenas três têm crateras identificadas. No caso brasileiro, análises isotópicas sugerem que o material derretido veio de crosta continental muito antiga, com 3 a 3,3 bilhões de anos, provavelmente do Cráton do São Francisco – uma das regiões mais velhas da América do Sul, com rochas graníticas. Isso ajuda a direcionar futuras buscas, que podem usar levantamentos aéreos magnéticos e gravitacionais para detectar anomalias circulares escondidas ou erodidas.

O tamanho do objeto que causou o impacto ainda não é conhecido com precisão, mas a quantidade de material derretido e a enorme área de dispersão indicam que foi algo significativo – embora menor que o evento da Australásia, que cobriu milhares de quilômetros. A equipe está desenvolvendo modelos matemáticos para estimar a energia liberada, a velocidade, o ângulo de entrada e o volume de rocha fundida.

Essa descoberta preenche uma lacuna importante no registro de impactos na América do Sul, onde apenas cerca de nove estruturas grandes são conhecidas, quase todas muito mais antigas e localizadas no Brasil. Ela também sugere que tektites podem ser mais comuns do que se pensava, mas muitas vezes passam despercebidas ou são confundidas com vidro comum. No início do Sistema Solar, colisões eram frequentes por causa do caos de detritos e órbitas instáveis, mas hoje, com o sistema mais organizado, eventos assim são raríssimos.

Entender esses processos ajuda a separar fatos científicos de especulações e a compreender melhor a história violenta do nosso planeta. Os geraisites não são apenas pedaços de vidro: são testemunhas silenciosas de um encontro cósmico que mudou o cenário geológico de parte do Brasil há milhões de anos – e agora, finalmente, temos provas concretas disso.


Publicado em 26/02/2026 02h35


English version



Estudo original:


{teste}