
doi.org/10.1073/pnas.2520385123
Credibilidade: 989
#Escrita
Há mais de 40 mil anos, nossos ancestrais já gravavam marcas intencionais em ferramentas, pequenas estatuetas e objetos de marfim, muito antes do surgimento de qualquer sistema de escrita conhecido
Um estudo recente, realizado pelo linguista Christian Bentz, da Universidade de Saarland, e pela arqueóloga Ewa Dutkiewicz, do Museu de Pré e Proto-História em Berlim, revela que essas marcas antigas não eram apenas enfeites decorativos. Ao analisar mais de 3.000 sinais encontrados em cerca de 260 objetos do período Paleolítico, os pesquisadores descobriram que as sequências de linhas, pontos, cruzes e entalhes apresentam uma complexidade estatística e uma densidade de informação surpreendentemente parecidas com as do proto-cuneiforme – o sistema de escrita mais antigo conhecido até hoje, que surgiu na Mesopotâmia por volta de 3.000 a.C., ou seja, dezenas de milhares de anos depois.
Muitas dessas peças foram encontradas em cavernas da região de Jura Suábia, no sudoeste da Alemanha. Entre elas estão pequenas esculturas feitas de marfim de mamute, como uma figurinha de mamute coberta por fileiras organizadas de cruzes e pontos, ou a famosa placa chamada “Adorant”, que mostra uma figura híbrida de leão e humano acompanhada por sequências regulares de pontos e entalhes. Outra peça conhecida é a escultura do “Homem-Leão”, que traz marcas uniformes ao longo de um dos braços.
Os pesquisadores viajaram por museus e sítios arqueológicos na Europa para documentar ainda mais exemplos. Segundo Dutkiewicz, objetos com sequências semelhantes de sinais aparecem em várias regiões, embora a Jura Suábia seja uma das áreas mais ricas em achados desse tipo. Essas peças datam de 34 mil a 45 mil anos atrás, de uma época em que o Homo sapiens já havia saído da África e chegado à Europa, convivendo inclusive com os neandertais.
Em vez de tentar adivinhar o significado exato das marcas – algo que ainda permanece um mistério “, a equipe usou métodos computacionais da linguística quantitativa, estatística e machine learning para estudar características mensuráveis: com que frequência certos sinais se repetem, quão previsíveis são as sequências e quanta informação elas poderiam, em teoria, transmitir.
Os resultados foram inesperados. Diferentemente da escrita moderna, que representa a fala e carrega alta densidade de informação com pouca repetição, tanto as marcas paleolíticas quanto o proto-cuneiforme mostram muita repetição (como cruz, cruz, cruz, linha, linha, linha) e previsibilidade alta na sequência de sinais. Em termos de “entropia? – uma medida de quanta informação está codificada “, os dois sistemas são estatisticamente muito semelhantes. Curiosamente, as figurinhas apresentam densidade de informação maior do que as ferramentas simples.
Essa descoberta sugere que a capacidade humana de codificar informações por meio de símbolos visuais é muito mais antiga do que imaginávamos. Os objetos eram pequenos o suficiente para serem carregados na palma da mão, o que indica que as pessoas os levavam consigo – algo parecido com as tabuletas de argila do proto-cuneiforme.
Os autores não afirmam que esses sinais eram uma “escrita? no sentido moderno, mas sim que representam um sistema de signos intencional, uma forma primitiva de registrar ou transmitir informações. Talvez servissem para contar, marcar eventos importantes, coordenar grupos sociais ou ajudar na sobrevivência em um mundo desafiador.
Christian Bentz destaca que a habilidade de codificar informações em sinais evoluiu ao longo de dezenas de milhares de anos, e que a escrita propriamente dita é apenas uma etapa específica nessa longa história. Curiosamente, o mesmo princípio de prever sequências – central nos sistemas antigos – continua presente hoje na tecnologia, inclusive em modelos de inteligência artificial que funcionam justamente analisando padrões previsíveis na linguagem.
Essa pesquisa, publicada na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences” (PNAS), faz parte de um projeto maior financiado pelo Conselho Europeu de Pesquisa e mostra que nossos ancestrais do Paleolítico já possuíam capacidades cognitivas avançadas para criar e usar símbolos visuais de maneira estruturada.
A escrita pode ter mais de 40 mil anos!#Escrita
– Terra Raraن (@Terra_Rara) February 25, 2026
Há mais de 40 mil anos, nossos ancestrais já gravavam marcas intencionais em ferramentas, pequenas estatuetas e objetos de marfim, muito antes do surgimento de qualquer sistema de escrita conhecido
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Publicado em 25/02/2026 00h17
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