Por que as emissões de metano aumentaram durante a pandemia, mesmo com menos atividade humana?

Imagem via FCPC

doi.org/10.1126/science.adx8262
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#Metano 

Durante a pandemia de COVID-19, em 2020, grande parte do mundo parou

Com lockdowns, menos carros nas ruas, fábricas funcionando menos e viagens aéreas reduzidas, a poluição do ar caiu bastante. Cientistas observaram uma diminuição clara nas emissões de dióxido de carbono e em outros poluentes causados pelo ser humano. Esperava-se que isso trouxesse algum alívio para o clima, mas aconteceu exatamente o contrário com o metano: esse gás de efeito estufa, o segundo mais importante depois do CO”, teve um aumento surpreendente na atmosfera, alcançando os níveis mais altos desde que as medições começaram, nos anos 1980.

Agora, um estudo detalhado publicado na revista Science, realizado por mais de 40 cientistas de várias partes do mundo, finalmente explica esse paradoxo. Eles atualizaram o “orçamento global de metano” até 2023, usando medições da NOAA (agência americana que monitora a atmosfera), dados de satélites como o GOSAT e vários modelos computacionais que acompanham quanto metano entra e sai da atmosfera.

As duas razões principais para o pico foram identificadas: cerca de 80% do aumento veio de uma mudança na química da atmosfera. O metano é naturalmente destruído por uma molécula chamada radical hidroxila (OH), que age como um “limpador” do ar. Esse radical se forma principalmente quando a luz solar reage com poluentes emitidos por atividades humanas, como óxidos de nitrogênio (NOx) vindos de carros, indústrias e queima de combustíveis. Com os lockdowns, esses poluentes caíram drasticamente, o que reduziu a produção de radicais hidroxila. Sem tantos “limpadores” no ar, o metano que já estava lá durou mais tempo e se acumulou em maiores quantidades.

A outra parte do aumento, cerca de 20%, veio de emissões naturais maiores, especialmente de áreas úmidas (como pântanos e pântanos tropicais), águas interiores e arrozais. Isso aconteceu porque, ao mesmo tempo, o fenômeno climático La Niña trouxe chuvas mais intensas em regiões tropicais da África e do Sudeste Asiático. Solos mais encharcados criaram condições ideais para micróbios que produzem metano, liberando mais gás para a atmosfera.

Liderado por pesquisadores como Philippe Ciais, do Laboratório de Ciências do Clima e do Ambiente na França, o estudo mostra que, embora as emissões humanas diretas de metano tenham caído um pouco em 2020, o efeito indireto da limpeza do ar e o aumento das fontes naturais superaram essa redução. Com o retorno das atividades normais, o processo de destruição do metano voltou ao ritmo habitual e o crescimento desacelerou recentemente.

A conclusão a que se chega é que, com a diminuição da atividade humana, diminuíram gases óxidos na atmosfera, como o óxidos de nitrogênio. Essa diminuição, fez com que não se formasse tanta hidroxila quanto antes, diminuindo a “limpeza” que essa hidroxila fazia do Metano, aumentando o nível desse gás na atmosfera e já que o Metano é de 40 a 80 vezes mais significativo para o aquecimento do que o CO2, o aumento do Metano contribuiu para o aquecimento. Ou seja, a diminuição da atividade humana acabou por estimular o aumento do aquecimento na atmosfera. Paradoxal, mas tudo indica que é fato.

O estudo reforça a necessidade de um melhor monitoramento da atmosfera por satélite e de uma compreensão mais profunda dessas complexas interações químicas, pois surpresas como essa podem surgir não apenas do aumento das emissões, mas também de mudanças sutis na composição do ar que respiramos.


Publicado em 18/02/2026 11h23


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