
doi.org/10.1093/mnras/staf1854
Credibilidade: 989
#Via Láctea
Há décadas, os astrônomos acreditam que no centro da nossa galáxia, a Via Láctea, existe um buraco negro supermassivo chamado Sagitário A”, com massa equivalente a cerca de quatro milhões de vezes a do Sol
Essa conclusão vem de observações impressionantes: estrelas orbitando em velocidades altíssimas ao redor de um ponto invisível, o anel brilhante capturado pelo Telescópio do Horizonte de Eventos e o comportamento gravitacional que só um objeto extremamente compacto e massivo explicaria.
Mas um novo estudo, publicado recentemente na revista “Monthly Notices of the Royal Astronomical Society”, propõe uma ideia ousada e intrigante: e se o que está no coração da galáxia não for um buraco negro, mas sim um denso aglomerado de matéria escura? A matéria escura é aquela substância misteriosa que não emite nem absorve luz, mas influencia a gravidade em escalas gigantescas, respondendo por cerca de 85% da massa total do universo.
Os pesquisadores, liderados por cientistas como Valentina Crespi e Carlos Argüelles, do Instituto de Astrofísica de La Plata, na Argentina, sugerem que uma forma específica de matéria escura, composta por partículas leves chamadas férmions, poderia se acumular no centro da galáxia formando um núcleo ultradenso e estável. Esse núcleo teria uma estrutura peculiar: um caroço muito compacto no meio, cercado por um halo mais difuso que se estende por toda a galáxia.
O que torna essa hipótese fascinante é que ela consegue explicar, ao mesmo tempo, dois fenômenos observados na Via Láctea. Perto do centro, as estrelas chamadas S-stars giram em órbitas apertadas e velocidades extremas, como se fossem puxadas por algo com gravidade imensa e concentrada – algo que um buraco negro faria perfeitamente, mas que esse núcleo de matéria escura também conseguiria imitar. Ao mesmo tempo, nas regiões externas da galáxia, a rotação das estrelas e do gás segue um padrão que sugere a presença de matéria escura espalhada, e o modelo prevê exatamente isso, com o mesmo material formando tanto o núcleo central quanto o halo galáctico.
Os autores destacam que não se trata apenas de substituir um buraco negro por um objeto escuro invisível. Eles propõem algo mais unificado: o objeto supermassivo central e o halo de matéria escura da galáxia seriam manifestações diferentes da mesma substância contínua. Isso cria uma estrutura com um núcleo denso e um halo mais alongado, diferente dos modelos tradicionais de matéria escura fria, que preveem halos mais difusos e com caudas estendidas.
Além disso, o modelo se alinha surpreendentemente bem com a imagem do Telescópio do Horizonte de Eventos de Sagitário A”, que mostra uma sombra central cercada por um anel de luz – algo que, segundo os pesquisadores, poderia ser produzido por esse aglomerado compacto de matéria escura, sem precisar de um horizonte de eventos típico de buraco negro.
Claro que essa ideia ainda é especulativa e enfrenta desafios. A comunidade científica aceita amplamente a existência de buracos negros supermassivos em centros galácticos, com evidências acumuladas de várias galáxias, incluindo a nossa. Modelos alternativos precisam de provas muito fortes para substituir o consenso atual. Observações futuras, como as do Telescópio James Webb, do Extremely Large Telescope ou avanços em ondas gravitacionais, poderão testar melhor essas previsões, verificando detalhes das órbitas estelares ou sinais sutis que diferenciem um buraco negro de um núcleo de matéria escura.
Por enquanto, a proposta abre uma possibilidade empolgante: talvez o centro da nossa galáxia seja dominado não por um buraco negro devorador de matéria, mas por uma concentração gigantesca de matéria escura, revelando uma conexão mais profunda entre o mistério da matéria escura e a arquitetura da Via Láctea.
Publicado em 15/02/2026 01h19
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