Astrônomos revelam o esqueleto magnético escondido da Via Láctea

Imagem via NASA

doi.org/10.3847/1538-4357/ae28d1
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#Via Láctea 

A Via Láctea, nossa galáxia natal, guarda um segredo invisível que é fundamental para sua existência: um vasto campo magnético que atua como uma espécie de esqueleto invisível, impedindo que ela desabe sob o próprio peso da gravidade

Sem esse campo, tudo colapsaria. Agora, uma equipe de astrônomos, liderada pela professora Jo-Anne Brown, da Universidade de Calgary, no Canadá, conseguiu mapear partes importantes dessa estrutura oculta com um nível de detalhe nunca visto antes, revelando surpresas que mudam o que pensávamos saber sobre como nossa galáxia está organizada.

Os pesquisadores usaram observações em ondas de rádio captadas por um telescópio no Dominion Radio Astrophysical Observatory, no Canadá. Eles varreram o céu do hemisfério norte em várias frequências de rádio, o que permitiu separar sinais que se sobrepõem ao longo da linha de visão e traçar o comportamento do campo magnético. O truque principal foi medir algo chamado rotação de Faraday: quando as ondas de rádio atravessam gás ionizado na presença de um campo magnético, elas sofrem uma torção na sua orientação. Ao observar como essa torção varia de lugar para lugar e com diferentes frequências, é possível reconstruir a forma e a direção do campo invisível ao nosso redor.

O resultado foi um conjunto de dados muito completo, chamado GMIMS, que agora está disponível para toda a comunidade científica usar. Com ele, a equipe descobriu padrões inesperados. De modo geral, se pudéssemos ver a galáxia de cima, o campo magnético gira no sentido horário. Mas no braço de Sagitário – um dos braços espirais da Via Láctea – ele vai no sentido oposto, anti-horário. Por muito tempo, ninguém entendia bem como acontecia essa mudança de direção. Agora, graças aos novos dados, eles propuseram um modelo tridimensional que explica tudo: a reversão não é abrupta, mas ocorre de forma diagonal no espaço. Da nossa posição na Terra, isso aparece como uma transição inclinada nos mapas, resolvendo um mistério antigo.

Diagrama da Via Láctea, mostrando o campo magnético invertido do Braço de Sagitário. Crédito: Jo-Anne Brown, PhD, OU Fig. 11 de Van Eck et al. 2011.

Essa estrutura magnética influencia vários processos importantes. Ela guia o movimento do gás interestelar, ajuda a decidir onde novas estrelas nascem e controla o caminho de partículas cósmicas que viajam pela galáxia. Entender melhor como o campo está organizado hoje é essencial para criar modelos que prevejam como ele vai evoluir no futuro, e assim compreender a história e o destino da nossa galáxia inteira.

Os estudos foram publicados em dois artigos na revista “The Astrophysical Journal” no final de janeiro de 2026, e a liberação dos dados abre portas para que outros cientistas do mundo todo continuem investigando. Aos poucos, o que era invisível está ganhando forma, mostrando que nossa galáxia tem uma arquitetura magnética bem mais complexa e fascinante do que imaginávamos.


Publicado em 09/02/2026 01h13


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Estudo original:


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