Calor escondido sob os montes Apalaches vem de uma antiga separação com a Groenlândia

Uma onda de calor atmosférica de longa distância, originada perto da Groenlândia, continua a moldar a América do Norte por baixo. Crédito: Shutterstock

doi.org/10.1130/G53588.1
Credibilidade: 989
#Deriva continental 

Bem lá no fundo da Terra, a mais de 200 quilômetros de profundidade sob as montanhas Apalaches e o nordeste dos Estados Unidos, existe uma enorme massa de rocha anormalmente quente

Durante décadas os cientistas achavam que esse calor era um resto da separação entre a América do Norte e a África, que aconteceu há cerca de 180 milhões de anos. Mas um novo estudo, publicado na revista Geology, mostra que a verdadeira origem: essa bolha quente nasceu há cerca de 80 milhões de anos, quando a Groenlândia se desprendeu do Canadá.

Os pesquisadores da Universidade de Southampton (Reino Unido), do Centro Helmholtz de Geociências em Potsdam (Alemanha) e da Universidade de Florença (Itália) descobriram que a chamada Anomalia Térmica do Norte dos Apalaches (ou simplesmente NAA) não surgiu onde está hoje. Ela se formou a quase 1.800 quilômetros de distância, próximo ao Mar do Labrador, no momento em que o oceano começou a se abrir entre a América do Norte e a Groenlândia.

Com o passar de dezenas de milhões de anos, essa massa de rocha quente e instável foi “escorrendo? lentamente para o sul-sudoeste, como uma gota muito lenta numa lâmpada de lava gigante. O ritmo é de cerca de 20 quilômetros a cada milhão de anos – lentíssimo para nós, mas rápido em escala geológica. Hoje ela está sob o estado de Nova York e a Nova Inglaterra; daqui a uns 15 milhões de anos, o centro dessa anomalia deve passar por baixo da cidade de Nova York.

Mapa mostrando a origem da Anomalia dos Apalaches do Norte, quando a Groenlândia e a América do Norte se separaram, e sua jornada de mais de 80 milhões de anos até sua localização sob a Nova Inglaterra, além da imagem espelhada da Anomalia dos Apalaches do Norte sob a Groenlândia. Crédito: Universidade de Southampton

O processo tem um nome bonito: “onda do manto? ou “gotejamento do manto”. Quando dois continentes se separam, pedaços grossos da base rígida da placa continental (a litosfera) começam a se soltar e afundar devagar no manto mais quente e mole que fica abaixo. Ao afundar, criam espaço para material mais quente subir, formando uma região aquecida que pode durar dezenas de milhões de anos.

Esse calor profundo ajuda a explicar por que as montanhas Apalaches, apesar de serem muito antigas e já bastante erodidas, ainda continuam relativamente altas. O calor na base do continente “come? parte da raiz fria e densa que segura o continente para baixo, deixando-o mais leve e flutuante – como se o continente soltasse lastro e subisse um pouco, igual a um balão de ar quente.

Do outro lado do Atlântico Norte, sob o centro-norte da Groenlândia, existe uma anomalia térmica quase gêmea. As duas nasceram juntas, uma de cada lado da fenda que se abriu entre os continentes. Lá, esse calor antigo chega até a influenciar o comportamento da enorme camada de gelo da Groenlândia, facilitando o fluxo e o derretimento do gelo por baixo.

Em resumo, mesmo que a superfície da Terra pareça calma e estável há milhões de anos nessa região, lá no fundo o planeta ainda está “lembrando? e reagindo à separação entre a Groenlândia e a América do Norte. Eventos tectônicos que aconteceram quando os dinossauros ainda caminhavam pela Terra continuam mexendo com o relevo, com o gelo e até com a possibilidade de pequenos vulcões raros trazerem diamantes à superfície muito tempo depois.

O que parecia ser apenas uma curiosidade geológica escondida acabou revelando que as consequências profundas e duradouras da dança lenta dos continentes continuam moldando nosso planeta até hoje.


Publicado em 03/12/2025 14h22


English version



Estudo original:


{teste}