
Os olhos do camaleão que giram para todos os lados e conseguem olhar em duas direções diferentes ao mesmo tempo fascinam a humanidade desde a Grécia Antiga
Aristóteles, há mais de dois mil anos, chegou a dizer que esses animais nem tinham nervos ópticos – os olhos estariam ligados diretamente ao cérebro. Durante séculos, filósofos, médicos e cientistas tentaram entender o segredo por trás desse movimento quase mágico. Só agora, em 2025, o mistério foi finalmente resolvido: os nervos ópticos dos camaleões são enrolados em longas espirais, como molas, permitindo que os olhos girem quase 360° sem se romperem ou ficarem esticados. Essa estrutura é única entre todos os lagartos do planeta.
“Os olhos do camaleão são como câmeras de segurança que vigiam tudo ao redor”, explica Juan Daza, professor da Sam Houston State University e principal autor do estudo. “Cada olho se move sozinho enquanto o animal procura presas. Quando encontra um inseto, os dois olhos se alinham imediatamente na mesma direção para calcular a distância e disparar a língua com precisão.”

Uma descoberta que quase ninguém viu
Tudo começou em 2017, quando Edward Stanley, do Museu de História Natural da Flórida, fazia uma tomografia computadorizada de um camaleão-folha minúsculo (Brookesia minima). Dentro do crânio, ele viu algo nunca registrado: os nervos ópticos enrolados como espirais perfeitas. Os dois pesquisadores ficaram tão chocados que acharam que alguém já devia ter descrito aquilo. Vasculharam bibliotecas inteiras, textos em latim, francês, italiano e até misturas de idiomas antigos. Nada. Nem Isaac Newton, que escreveu sobre os olhos do camaleão em 1704, nem os anatomistas do século XIX que desenharam pedaços do nervo tinham percebido a mola completa.
Por quê ninguém viu antes? Porque, durante séculos, a única forma de estudar era dissecando o animal com bisturi. Ao abrir o crânio, o delicado nervo óptico se deslocava ou era cortado, perdendo exatamente a forma enrolada que agora a tomografia revela sem tocar no bicho.
Mestres da vida nas árvores
Camaleões vivem na África, em partes da Europa e da Ásia, quase sempre nos galhos. Para isso, evoluíram adaptações incríveis: cauda que enrola e segura como uma mão extra, pés em forma de pinça, movimento lentíssimo para não serem notados. Velocidade eles não têm – nem precisam. A arma é a língua-catapulta, que sai de 0 a 100 km/h em um centésimo de segundo e pode ser maior que o dobro do corpo do animal.
Como o pescoço quase não vira, a solução foi deixar os olhos fazerem o trabalho. Em outros animais, nervos ópticos são retos ou levemente ondulados. Nos camaleões, viraram molas de telefone antigo: quanto mais o olho gira, mais a espiral se desenrola, dando folga sem esticar ou torcer o nervo.
Como a mola se forma
Os cientistas analisaram embriões de camaleão-velado (Chamaeleo calyptratus) em diferentes estágios. Logo no começo, os nervos ópticos são retos. Perto do nascimento, eles crescem tanto que começam a enrolar sozinhos dentro do crânio. Quando o filhote sai do ovo, já nasce com os dois olhos totalmente móveis e as molas prontas.
Por que só o camaleão tem isso?
Entre os vertebrados, quem tem olhos grandes geralmente escolhe uma de duas estratégias: virar muito o pescoço (como corujas e lêmures) ou ter nervos ópticos flexíveis (como nós, humanos). Camaleões não conseguem virar o pescoço quase nada, então inventaram a mola – uma solução tão rara que só aparece em alguns invertebrados, como a mosca-dos-olhos-em-pé.
“É igual ao fio de telefone antigo”, brinca Daza. “No começo era reto e curto. Depois alguém enrolou para dar mais alcance. O camaleão fez a mesma coisa com o nervo óptico: enrolou para o olho poder girar o quanto quisesse.”
Uma revolução silenciosa
A descoberta só foi possível graças a dois avanços: tomografias que enxergam dentro do crânio sem abrir nada e projetos como o oVert, que disponibilizam gratuitamente modelos 3D de milhares de animais para cientistas do mundo inteiro. Analisando mais de 30 espécies de lagartos e cobras, os pesquisadores confirmaram: só os camaleões têm nervos ópticos tão longos e enrolados.
Depois de Aristóteles, Newton, dezenas de anatomistas e mais de dois mil anos de curiosidade, o segredo estava lá, escondido dentro da cabeça do camaleão, esperando a tecnologia certa para ser visto. Como disse Edward Stanley: “É emocionante ser quem dá o próximo passo nessa estrada tão longa de entender o que diabos acontece dentro da cabeça de um camaleão.”
A natureza ainda guarda surpresas – e, às vezes, as maiores delas estavam bem na nossa frente o tempo todo.
Publicado em 18/11/2025 09h41
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