A lista dos reis sumerianos: O mistério da origem da realeza na Mesopotâmia

O prisma de Weld-Blundell. (Museu Ashmolean / CC BY-SA 4.0)

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Entre os muitos objetos incríveis encontrados em sítios arqueológicos no Iraque, onde existiam cidades sumerianas prósperas, poucos são tão fascinantes quanto a Lista dos Reis Sumerianos

O que torna a Lista dos Reis Sumerianos tão especial é que ela mistura reis que parecem ser figuras míticas, de tempos muito antigos, com reis históricos que sabemos que realmente existiram. Essa combinação de mito e história deixa os estudiosos intrigados há mais de um século.

A Descoberta da Lista

O primeiro pedaço desse texto raro, uma tabuleta de argila com escrita cuneiforme de 4.000 anos, foi encontrado no início dos anos 1900 pelo pesquisador alemão-americano Hermann Hilprecht, na antiga cidade de Nippur. Ele publicou seus resultados em 1906. Desde então, pelo menos 18 outras versões da lista foram encontradas, a maioria datada da segunda metade da dinastia de Isin, entre 2017 e 1794 a.C. Nenhuma dessas versões é idêntica, mas todas compartilham informações suficientes para mostrar que vieram de uma única história “ideal” da Suméria.

Vaso esculpido representando Gilgamesh lutando contra dois touros do templo Shara em Tell Agrab, região de Diyala, Iraque. Gilgamesh foi incluído na Lista de Reis Sumérios. (Osama Shukir Muhammed Amin / CC BY-SA 4.0)

O Prisma Weld-Blundell

Entre todas as versões da Lista dos Reis Sumerianos, o Prisma Weld-Blundell, guardado no Museu Ashmolean, em Oxford, é a mais completa e detalhada. Esse prisma de 20 centímetros de altura tem quatro lados, cada um com duas colunas de texto. Acredita-se que ele tinha um eixo de madeira no centro, permitindo que fosse girado para leitura em todos os lados. O documento lista reis desde as dinastias “antediluvianas” (antes do dilúvio) até o 14º rei da dinastia de Isin, por volta de 1763 a 1753 a.C.

A lista é muito valiosa porque preserva tradições antigas e ajuda a entender a cronologia dos períodos de reinado na Suméria. Curiosamente, ela também apresenta semelhanças surpreendentes com histórias da Bíblia, como as do livro de Gênesis.

A Civilização Suméria

A Suméria, às vezes chamada de Suméria, é considerada a primeira civilização conhecida. Localizava-se no sul da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, na região que mais tarde se tornou a Babilônia e hoje é o sul do Iraque, da área de Bagdá até o Golfo Pérsico. No 3º milênio a.C., a Suméria era formada por pelo menos 12 cidades-estado, como Kish, Ur, Nippur e Lagash. Cada uma tinha uma cidade murada, vilarejos ao redor e um templo central dedicado a uma divindade específica.

No início, o poder político pertencia aos cidadãos, mas, com o aumento das rivalidades entre as cidades, cada uma adotou a figura de um rei. A Lista dos Reis Sumerianos diz que oito reis governaram antes de um grande dilúvio. Depois disso, diferentes cidades-estado e seus reis assumiram o poder por períodos temporários.


Um Passado Mítico

A Lista dos Reis Sumerianos começa descrevendo a origem da realeza como algo divino: “a realeza desceu do céu”. Os primeiros reis, de cidades como Eridug, teriam reinado por períodos incrivelmente longos. Por exemplo, o texto diz que Alulim, o primeiro rei, governou por 28.800 anos, e Alaljar, por 36.000 anos. No total, os oito primeiros reis teriam reinado por 241.200 anos até um grande dilúvio varrer a terra. Depois disso, a realeza “desceu do céu? novamente, e novos reis começaram a governar.

Alguns desses reis antigos, como Etana, Lugal-banda e Gilgamesh, são figuras lendárias, conhecidas por histórias épicas sumérias e babilônicas. Suas façanhas heroicas aparecem em poemas e narrativas antigas.

Por que reinados tão longos?

Os períodos de reinado absurdamente longos dos primeiros reis geram muitas perguntas. Alguns estudiosos acham que esses números são puramente simbólicos ou inventados, sem valor histórico. Outros acreditam que os reis iniciais eram vistos como deuses, capazes de viver muito mais que humanos. Há também quem sugira que esses números representam a importância ou o poder desses reis. Por exemplo, no Egito Antigo, dizer que alguém “morreu com 110 anos? significava que teve uma vida plena e contribuiu muito para a sociedade. Talvez os longos reinados sumérios reflitam algo semelhante: a enorme importância desses reis para o povo.

Outra teoria é que, embora esses reis iniciais não tenham provas históricas, eles podem estar baseados em governantes reais que, com o tempo, foram transformados em lendas. Alguns pesquisadores, como Harrison, tentaram explicar os números com cálculos matemáticos, mas o mistério persiste. Curiosamente, após o dilúvio, os reinados na lista passam a ter durações mais realistas, o que intriga ainda mais os estudiosos.

Pintura do Grande Dilúvio contada em Gênesis. Augsburger Wunderzeichenbuch, Fólio 1 (Gênesis 7, 11-14). (Domínio público)

Semelhanças com a Bíblia

Alguns pesquisadores, como Bryant G. Wood, destacam semelhanças entre a Lista dos Reis Sumerianos e o livro de Gênesis, na Bíblia. Por exemplo, a lista menciona um grande dilúvio que “varreu a terra”, parecido com a história do dilúvio e da arca de Noé, que tentou salvar os animais da destruição. A lista também registra oito reis antes do dilúvio, com reinados muito longos, variando de 18.600 a 43.200 anos. Isso lembra Gênesis 5, que lista as gerações desde a criação até o dilúvio, também com oito gerações entre Adão e Noé.

Além disso, tanto a Bíblia quanto a Lista dos Reis Sumerianos mostram que, após o dilúvio, a duração da vida (ou dos reinados) diminui significativamente. Essa semelhança levanta questões sobre como essas histórias podem estar conectadas.

Um Mistério Antigo

A Lista dos Reis Sumerianos é um enigma fascinante. Por que os sumérios misturaram reis míticos com reis históricos no mesmo documento? Por que há tantas semelhanças com as histórias da Bíblia? E por que os primeiros reis teriam reinado por milhares de anos? Essas perguntas continuam sem resposta, mesmo após mais de um século de estudos.

A Lista dos Reis Sumerianos não é apenas um registro histórico; ela nos conecta a uma civilização antiga que via a realeza como um presente dos céus. Suas histórias, cheias de mitos e mistérios, continuam a inspirar curiosidade e debates entre arqueólogos, historiadores e todos que se encantam com os segredos do passado.


Publicado em 10/10/2025 14h39


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