Um mundo minúsculo além de Netuno tem uma atmosfera impossível

Representação artística da ocultação de 2002 XV93. (NAOJ/Ko Arimatsu)

doi.org/10.1038/s41550-026-02846-1
Credibilidade: 989
#Sistema Solar 

Cientistas descobriram algo surpreendente nos confins do Sistema Solar

Bem além da órbita de Netuno, existe um pequeno mundo gelado, com cerca de 500 quilômetros de diâmetro, que possui uma atmosfera fina e tênue. O mais intrigante é que, segundo o que se sabia até agora, um objeto tão pequeno e com gravidade tão fraca não deveria conseguir manter nenhuma atmosfera. No entanto, ela está lá, desafiando nossas ideias sobre como os corpos celestes retêm gases ao seu redor.

Esse objeto, chamado (612533) 2002 XV93, é um plutino – um tipo de corpo gelado que orbita o Sol em ressonância com Netuno, a uma distância de cerca de 40 vezes a da Terra. Esses mundos distantes, localizados no Cinturão de Kuiper, são como fósseis do início do Sistema Solar. Eles guardam informações valiosas sobre a formação dos planetas e o movimento de materiais na época em que o sistema ainda era jovem. Mas estudá-los é extremamente difícil: são muito pequenos, escuros e distantes, refletindo pouca luz para nossos telescópios.

A detecção da atmosfera só foi possível graças a um evento raro chamado ocultação estelar. Em 2024, astrônomos japoneses, liderados por Ko Arimatsu, do Observatório Astronômico Nacional do Japão, tiveram a sorte de observar o momento exato em que 2002 XV93 passou na frente de uma estrela distante. Usando três diferentes locais de observação no Japão, eles registraram com precisão como a luz da estrela foi bloqueada pelo objeto.

Em um corpo sem atmosfera, a luz da estrela desapareceria de forma abrupta e reapareceria da mesma maneira. Mas os dados mostraram algo diferente: durante cerca de 1,5 segundo antes e depois do bloqueio total, que durou entre 15 e 20 segundos, a luz diminuiu e aumentou de forma gradual. Isso só pode ser explicado se a luz passou por uma camada de gás que a refratou (dobrou) levemente. Modelos baseados na atmosfera de Plutão indicaram que se trata de uma atmosfera extremamente rarefeita, composta principalmente de metano, nitrogênio ou monóxido de carbono, com pressão de apenas 100 a 200 nanobars – algo como 5 a 10 milhões de vezes mais fina que a atmosfera da Terra ao nível do mar.

Essa descoberta é impressionante por dois motivos principais. Primeiro, demonstra que nossos instrumentos e técnicas atuais são capazes de detectar atmosferas quase inexistentes em objetos muito distantes. Segundo, os cálculos mostram que uma atmosfera tão frágil deveria se dissipar em apenas algumas centenas ou milhares de anos devido à baixa gravidade. Para que ela ainda exista hoje, precisa estar sendo reabastecida de alguma forma.

Os pesquisadores propõem duas explicações principais. Uma é que um cometa tenha colidido recentemente com o objeto, liberando gases que formaram essa atmosfera temporária. Outra possibilidade é a existência de criovulcões ativos – vulcões de gelo que expeliriam lamas geladas e gases do interior do corpo, renovando constantemente a atmosfera que escapa para o espaço, assim como possivelmente acontece em Plutão.

Essa é a primeira vez que uma atmosfera é confirmada em um objeto transnetuniano pequeno, além de Plutão. O achado sugere que até mundos minúsculos podem ter atmosferas, pelo menos por períodos curtos, e que precisamos revisar a ideia de que só planetas grandes conseguem reter gases ao seu redor. Como escreveram os autores no artigo publicado na revista Nature Astronomy: “Mesmo um objeto de poucas centenas de quilômetros no Cinturão de Kuiper pode abrigar, ao menos temporariamente, uma atmosfera. Nossos resultados indicam que uma fração desses corpos gelados distantes pode apresentar atmosferas sustentadas por atividade criovulcânica ou por impactos recentes.”

Essa observação não apenas expande nosso conhecimento sobre os confins do Sistema Solar, como também abre novas possibilidades para estudar outros objetos distantes com técnicas inovadoras. O que parecia impossível pode ser mais comum do que imaginávamos, revelando que o Universo continua cheio de surpresas nos lugares mais frios e escuros.


Publicado em 05/05/2026 20h13


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