
doi.org/10.1002/advs.202508967
Credibilidade: 999
#neurobots
Cientistas da Universidade Tufts e do Instituto Wyss conseguiram um avanço impressionante na biologia sintética: criaram pequenas estruturas vivas chamadas neurobots, que são basicamente robôs biológicos equipados com seu próprio sistema nervoso
Essas “máquinas vivas? representam um passo além dos xenobots, desenvolvidos em 2020 a partir de células de sapo, e abrem novas portas para entender como a vida se organiza e se comporta.
Tudo começou com células extraídas de embriões precoces do sapo africano Xenopus laevis. Quando essas células precursoras de pele são colocadas em um laboratório, elas se reúnem naturalmente e formam estruturas minúsculas e redondas, cobertas por projeções semelhantes a cílios – pequenos “pelos? que batem de forma coordenada e permitem que os xenobots nadem na água. Esses organismos são 100% biológicos, sem nenhum andaime artificial ou modificação genética. Eles se curam sozinhos, vivem por cerca de 10 dias usando nutrientes das células originais e até conseguem coletar outras células soltas para formar novos xenobots.
Agora, os pesquisadores decidiram dar um upgrade nesses biobots introduzindo células precursoras de neurônios bem no centro das estruturas em formação. O resultado foram os neurobots: organismos que desenvolvem, por conta própria, um sistema nervoso funcional. Os neurônios implantados amadurecem, estendem ramificações chamadas axônios e dendritos para dentro e para fora, formam sinapses (as conexões entre neurônios) e mostram atividade elétrica real, confirmada por imagens de cálcio. Ou seja, o sistema nervoso surge de forma espontânea, sem um “projeto? prévio da evolução.
Os neurobots são diferentes dos xenobots comuns. Eles crescem um pouco maiores, ficam mais alongados e se movem de maneiras mais complexas. Enquanto os biobots simples nadam em trajetórias básicas, os neurobots exibem padrões repetitivos de movimento e são mais ativos. Quando os cientistas aplicaram um medicamento chamado pentilenotetrazol – que afeta a atividade cerebral e pode provocar convulsões em animais “, os neurobots reagiram de forma distinta, mostrando que o sistema nervoso recém-formado realmente influencia o comportamento. Isso prova que até redes neurais simples e auto-organizadas conseguem controlar o corpo vivo.
Michael Levin, professor da Tufts e líder do estudo, explica que o objetivo era oferecer aos biobots os “materiais brutos? necessários para construir um sistema nervoso e observar o que aconteceria. “É uma forma nova de estudar como os neurônios se organizam e afetam o movimento”, diz ele. Já Haleh Fotowat, do Instituto Wyss, vê os neurobots como uma oportunidade de engenharia reversa: “Podemos construir um sistema nervoso do zero? O que acontece quando colocamos neurônios em um contexto totalmente novo? Quais são as regras básicas que eles seguem para formar redes”?
Surpreendentemente, os neurobots ativaram genes inesperados, inclusive aqueles ligados ao processamento visual e a células sensíveis à luz, como as dos olhos. Os pesquisadores especulam que, se vivessem mais tempo, talvez desenvolvessem fotorreceptores e pudessem “enxergar”. Isso sugere que as células estão adaptando seu genoma para funções novas e úteis, resolvendo problemas por conta própria.
O trabalho, publicado na revista Advanced Science, faz parte de uma busca maior por entender como grupos de células se organizam em estruturas complexas em ambientes desconhecidos. Esse conhecimento pode impulsionar a biologia sintética, a medicina regenerativa e até a criação de novos tecidos para reparar danos no corpo humano. Ao estudar essas criaturas minúsculas, os cientistas estão descobrindo as regras fundamentais da vida – regras que podem, no futuro, ajudar construindo ou consertar sistemas biológicos de forma mais inteligente.
Em resumo, os neurobots não são apenas curiosidades de laboratório. Eles mostram que a biologia tem uma capacidade incrível de auto-organização e que, ao dar às células as ferramentas certas, podemos observar a vida criando comportamentos e estruturas novas. É um vislumbre fascinante do potencial que ainda temos para explorar no mundo dos organismos vivos projetados.
Publicado em 24/04/2026 03h09
Estudo original:

