
doi.org/10.1093/molbev/msx206
Credibilidade: 989
#Hominídeo
Cientistas que analisaram o material genético de populações da África Ocidental descobriram evidências de que nossos ancestrais humanos modernos se cruzaram, há dezenas de milhares de anos, com uma espécie humana extinta e até então desconhecida
Essa espécie misteriosa, chamada pelos pesquisadores de “população fantasma”, contribuiu de forma significativa para o DNA de muitas pessoas que vivem hoje na região oeste do continente africano.
O estudo, liderado pelo professor Sriram Sankararaman, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), foi publicado na revista Science Advances em fevereiro de 2020. Os pesquisadores examinaram o genoma de centenas de indivíduos, especialmente dos povos Yoruba, da Nigéria e do Benin, e Mende, de Serra Leoa. Ao comparar esses dados com o DNA já conhecido de neandertais e denisovanos, eles identificaram trechos genéticos que não podiam ser explicados apenas pela evolução dentro da nossa própria espécie, o Homo sapiens.
Esses trechos indicam que houve cruzamento entre humanos modernos e essa população fantasma. Segundo as estimativas, entre 2% e 19% do material genético atual de alguns grupos da África Ocidental vem dessa espécie extinta. Isso significa que uma parte importante da herança genética dessas populações tem origem em um parente distante que já não existe mais.
A linhagem dessa população fantasma se separou da linha evolutiva que daria origem aos humanos modernos e aos neandertais há cerca de 650 mil anos, possivelmente entre 360 mil e 1 milhão de anos atrás. Ou seja, ela se dividiu bem antes da separação entre nossa espécie e os neandertais. O cruzamento propriamente dito teria acontecido por volta de 43 mil anos atrás, embora os cientistas alertem que há uma grande margem de incerteza nesse cálculo, podendo variar de poucos milhares a mais de 100 mil anos.
Diferente do que ocorreu fora da África, onde os humanos modernos que migraram se misturaram com neandertais e denisovanos, esse evento aconteceu inteiramente dentro do continente africano, berço da nossa espécie. Os Homo sapiens surgiram na África há mais de 300 mil anos e, durante sua longa permanência por lá, encontraram e se relacionaram com outros grupos humanos arcaicos que habitavam a região.
Até agora, não há fósseis conhecidos que possam ser atribuídos com certeza a essa população fantasma. Por isso, os cientistas a chamam de “fantasma”: sua existência é revelada apenas pelas marcas deixadas no DNA de quem vive hoje. Não se sabe exatamente onde ela vivia, como era fisicamente ou qual foi seu destino final – se foi completamente absorvida ou se desapareceu por outros motivos.
O professor Sankararaman explicou que ainda é cedo para dizer quais foram os efeitos práticos dessa mistura genética. Em outros casos, como o DNA neandertal em populações não africanas ou um gene denisovano que ajuda tibetanos a viver em grandes altitudes, houve benefícios adaptativos. No caso dos africanos ocidentais, porém, ainda não está claro se o material genético da população fantasma trouxe alguma vantagem ou se teve impactos neutros ou até negativos.
Essa descoberta enriquece e complica ainda mais a história da evolução humana. Durante muito tempo, acreditava-se que os cruzamentos com outras espécies humanas tinham acontecido principalmente fora da África, após a grande migração dos nossos ancestrais. Agora, fica evidente que a história genética dentro do continente africano também foi marcada por encontros e misturas com grupos arcaicos.
O estudo reforça a ideia de que a ancestralidade humana é muito mais entrelaçada do que se imaginava. Em vez de uma árvore genealógica simples e reta, nossa história se parece mais com uma rede complexa, cheia de ramificações e conexões inesperadas. Humanos modernos carregam, em seu DNA, pedaços de parentes distantes que viveram em diferentes partes do mundo e em épocas diferentes.
Embora o foco tenha sido em populações específicas da África Ocidental, os pesquisadores acreditam que sinais semelhantes podem existir em outros grupos africanos, e novos estudos com mais amostras devem ajudar a esclarecer melhor esse quadro. A falta de fósseis bem preservados na África, devido a condições climáticas que não favorecem a conservação de ossos antigos, torna o DNA uma ferramenta ainda mais valiosa para reconstruir o passado.
Em resumo, o que parecia ser apenas variação genética dentro da nossa espécie revelou-se, na verdade, herança de um encontro antigo com um primo humano desconhecido. Essa “população fantasma? agora faz parte da nossa própria história, presente no sangue de milhões de pessoas que hoje chamam a África Ocidental de lar. A pesquisa abre novas portas para entender não só de onde viemos, mas também como as interações entre diferentes grupos humanos moldaram quem somos hoje.
Publicado em 22/04/2026 07h02
Estudo original:

