
doi.org/10.1785/0320260001
Credibilidade: 989
#Núcleo
Cientistas acabam de revelar, por meio de uma análise global de dados sísmicos, que o limite inferior do manto terrestre está sofrendo deformações generalizadas.
Essas mudanças ocorrem exatamente na fronteira com o núcleo externo do planeta, uma região extrema onde as rochas enfrentam pressões e temperaturas inimagináveis.
Para entender melhor, imagine a estrutura da Terra como uma cebola gigante. No centro está o núcleo, feito principalmente de ferro e níquel, com uma parte externa líquida que gera o campo magnético que nos protege. Acima dele fica o manto, uma camada espessa de rochas quentes e semi-sólidas que se movem muito lentamente ao longo de milhões de anos, como um fluxo de mel grosso. Esse movimento do manto é o que impulsiona as placas tectônicas na superfície, causando terremotos, vulcões e a deriva dos continentes.
Até agora, os pesquisadores conheciam bem as deformações no manto superior, influenciadas diretamente pelo arrasto das placas tectônicas. No entanto, o que acontece no manto inferior, bem próximo ao núcleo, permanecia um mistério em grande escala. Um novo estudo liderado por Jonathan Wolf, da Universidade da Califórnia em Berkeley, mudou isso. A equipe analisou mais de 16 milhões de sismogramas – registros de ondas sísmicas geradas por terremotos ao redor do mundo “, vindos de 24 centros de dados diferentes. Foi a maior compilação desse tipo já feita.
Eles se concentraram em ondas de cisalhamento que viajam pelo manto, entram no núcleo e retornam. Essas ondas revelam a anisotropia sísmica, ou seja, variações na velocidade das ondas dependendo da direção em que viajam. Essa anisotropia funciona como uma espécie de “impressão digital? das rochas, mostrando como o material foi esticado, torcido ou reorganizado por correntes internas.
Os resultados surpreenderam: em cerca de dois terços das regiões analisadas – que cobrem quase 75% do manto inferior “, detectou-se anisotropia clara. O mais interessante é que essas deformações se concentram especialmente em áreas onde placas tectônicas antigas, que afundaram (subduziram) ao longo de milhões de anos, se acumularam perto da fronteira com o núcleo. É como se “cemitérios? de placas antigas estivessem influenciando o fluxo profundo do manto.
Os cientistas ainda investigam as causas exatas. Pode ser uma anisotropia “fóssil”, preservada desde quando as placas estavam próximas à superfície. Ou então uma deformação intensa causada pelo atrito com o núcleo líquido. Outra possibilidade envolve mudanças nos minerais sob pressão e calor extremos, criando novas estruturas internas nas rochas. Em algumas áreas, o sinal é fraco ou ausente, mas isso não significa ausência de movimento – pode ser apenas difícil de detectar com os métodos atuais.
Essa descoberta é importante porque ajuda a entender melhor a circulação geral do manto terrestre e como ela se conecta aos processos na superfície. O fluxo profundo influencia a distribuição de calor, o que, por sua vez, afeta a dinâmica do núcleo e a estabilidade do campo magnético que nos protege da radiação solar. Modelos geodinâmicos já previam algo assim, mas agora há evidências diretas em escala global.
Jonathan Wolf explicou que, enquanto o manto superior é bem mapeado pelo movimento das placas, o inferior ainda precisava de mais luz. “Queremos chegar a uma compreensão em grande escala do fluxo no manto mais profundo”, disse ele. No futuro, com mais dados e análises de anisotropia em diferentes escalas, os pesquisadores esperam mapear direções de fluxo globais com maior precisão, como se iluminassem o interior da Terra de vários ângulos.
O estudo, publicado em 1º de abril de 2026 na revista “The Seismic Record”, representa um tesouro de informações para futuras pesquisas sobre o interior profundo do nosso planeta. Embora ainda haja muito a descobrir – afinal, nunca chegaremos fisicamente a essas profundidades “, cada avanço sísmico nos aproxima de compreender como a Terra funciona como um sistema dinâmico, vivo e em constante transformação.
Esses movimentos misteriosos a 1.800 milhas de profundidade nos lembram que, mesmo abaixo dos nossos pés, o planeta continua ativo e cheio de surpresas. Com o tempo, esse conhecimento pode melhorar previsões sobre fenômenos geológicos e até ajudar a entender melhor a evolução da Terra ao longo de bilhões de anos.
Publicado em 06/04/2026 12h42
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