
doi.org/10.1073/pnas.2424082123
Credibilidade: 989
#Antártica
Há milhões de anos, as variações no tamanho da camada de gelo da Antártica influenciavam diretamente a vida marinha em regiões subtropicais, a milhares de quilômetros de distância
Um novo estudo revela que um ciclo astronômico sutil, relacionado à inclinação da Terra, desempenhava um papel surpreendente ao regular a produtividade biológica nos oceanos mais quentes do planeta.
Pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison descobriram que, por volta de 34 milhões de anos atrás, quando a camada de gelo antártica começava a se expandir de forma significativa, o chamado ciclo de obliquidade – que dura cerca de 40 mil anos e afeta o ângulo de inclinação da Terra – dominava as mudanças na circulação oceânica. Esse ciclo, que é mais forte nas regiões polares, acabou controlando o fluxo de nutrientes que chegavam às águas subtropicais, alimentando o crescimento de organismos marinhos.
Os cientistas chegaram a essa conclusão analisando amostras de sedimentos do fundo do mar, coletadas em expedições de perfuração oceânica entre 2020 e 2022, a bordo do navio de pesquisa JOIDES Resolution. Esses sedimentos guardam marcas químicas que registram a atividade biológica antiga nos oceanos. Alexandra Villa, que participou da expedição e hoje é pesquisadora na Alemanha, explica que hoje cerca de três quartos da produtividade marinha nas regiões ao norte de 30 graus de latitude sul dependem de nutrientes vindos do Oceano Austral, que circunda a Antártica. Essas águas ricas em nutrientes afundam e depois sobem novamente em latitudes mais baixas, fertilizando a superfície do mar.
Quando a camada de gelo antártica cresceu o suficiente para alcançar o Oceano Austral, o ritmo de 40 mil anos das variações no gelo passou a influenciar diretamente a distribuição desses nutrientes, alterando a quantidade de vida nos oceanos subtropicais. Stephen Meyers, professor de geociências e um dos autores principais do estudo, destaca que o sistema climático da Terra é extremamente interconectado: mudanças em uma região polar podem se propagar de formas inesperadas, afetando cadeias alimentares distantes.
O artigo, publicado na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences”, reforça a ideia de “teleconexões globais? – ligações climáticas que unem partes distantes do planeta. Os pesquisadores observam que, embora outros ciclos astronômicos costumem ter maior influência em regiões próximas ao Equador, nesse período específico o ciclo de obliquidade se destacou de maneira clara.
Essa descoberta ajuda a entender melhor como o clima global funcionava no passado e mostra como pequenas variações na inclinação da Terra podiam reverberar por todo o planeta, regulando a vida nos oceanos através da circulação de nutrientes. O estudo ressalta a dinâmica surpreendente do sistema terrestre e a importância das conexões entre gelo polar, oceanos e vida marinha.
Publicado em 01/04/2026 00h51
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