O vento quente da galáxia M82 é medido a mais de 3 milhões de km/h

O vento frio da galáxia M82 impulsiona gás e poeira a até 40.000 anos-luz de seu núcleo, como mostrado aqui usando dados do Observatório de Raios X Chandra da NASA e dos telescópios espaciais Hubble e Spitzer. A imagem inserida mostra uma visão do Chandra da região central da galáxia, onde um caldeirão de atividade estelar dá início ao fluxo de saída em larga escala. Crédito: Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA; Raios X: NASA/CXC/JHU/D.Strickland; Óptico: NASA/ESA/STScI/AURA/Equipe Hubble Heritage; Infravermelho: NASA/JPL-Caltech/Univ. do Arizona/C. Engelbracht; Colaboração XRISM et al. 2026

#M82 

Astrônomos conseguiram medir diretamente a velocidade de um vento de gás superaquecido que sai do centro da galáxia M82, uma galáxia vizinha conhecida por formar estrelas de forma muito intensa

Esse gás quente se move a mais de 3 milhões de quilômetros por hora (cerca de 2 milhões de milhas por hora). Os cientistas acreditam que ele é a principal força que impulsiona um vento mais frio e maior, que se estende por até 40 mil anos-luz a partir do núcleo da galáxia.

A medição foi feita graças ao telescópio espacial XRISM, da agência espacial japonesa JAXA em parceria com a NASA. O instrumento Resolve, a bordo da nave, analisou com grande precisão os raios X emitidos pelo ferro superaquecido no centro da galáxia.

O gás está a uma temperatura impressionante de cerca de 25 milhões de graus Celsius. Essa alta temperatura cria pressão suficiente para empurrar o material para fora, de forma parecida com o que acontece quando diferenças de pressão geram ventos na atmosfera da Terra.

A velocidade foi calculada observando o alargamento das linhas espectrais do ferro, causado pelo efeito Doppler – o mesmo fenômeno que faz o som de uma sirene mudar de tom quando o veículo se aproxima ou se afasta de nós. No caso de M82, o gás se move rapidamente em direções opostas, o que alargou essas linhas e revelou velocidades ainda maiores do que alguns modelos previam.

M82, também chamada de Galáxia do Charuto, fica a 12 milhões de anos-luz de distância, na constelação da Ursa Maior. Ela forma estrelas cerca de dez vezes mais rápido que a Via Láctea, por isso é classificada como uma galáxia starburst (de explosão estelar). Telescópios como Chandra, Hubble, Spitzer e James Webb já haviam mostrado o vento frio e extenso que expulsa gás e poeira dessa galáxia.

Agora, o XRISM olhou bem para o “caldeirão? central, onde ondas de choque de estrelas recém-nascidas e supernovas aquecem o gás e iniciam o fluxo para fora.

A astrofísica Erin Boettcher, da Universidade de Maryland e do Centro Goddard da NASA, explicou: “O modelo clássico para galáxias como M82 diz que as ondas de choque aquecem o gás e começam um vento poderoso. Antes do XRISM, não conseguíamos medir as velocidades necessárias para testar essa ideia. Agora vemos que o gás se move ainda mais rápido do que alguns modelos sugeriam, o suficiente para empurrar o vento até as bordas da galáxia.”

Os resultados mostram que o vento quente central consegue explicar boa parte do vento maior e mais frio observado. Isso pode reduzir a necessidade de usar raios cósmicos como principal explicação, embora eles ainda possam ter algum papel.

No entanto, ainda há perguntas em aberto. O centro de M82 expulsa gás equivalente formando cerca de sete estrelas do tamanho do Sol por ano, mas o vento medido parece remover apenas cerca de quatro massas solares de gás por ano. Os pesquisadores se perguntam para onde vai o resto do material.

Essas observações ajudam a testar e melhorar modelos antigos de galáxias starburst, criados desde os anos 1980, e trazem novas pistas sobre como a energia das supernovas e da formação de estrelas influencia a evolução das galáxias. O estudo foi publicado na revista Nature.


Publicado em 26/03/2026 20h54


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