O que realmente está acontecendo em Vênus? Cientistas revelam padrões surpreendentes

Vênus – Imagem via NASA

doi.org/10.1029/2025JE009133
Credibilidade: 989
#Vênus 

Vênus, o planeta mais próximo da Terra e muitas vezes chamado de seu “irmão gêmeo”, esconde sua superfície sob uma espessa camada de nuvens que torna extremamente difícil observá-la diretamente

Por décadas, as poucas informações sobre o que acontece no solo vieram de missões antigas, como as sondas Venera soviéticas, que conseguiram pousar e medir condições extremas: temperaturas acima de 460 °C, pressão esmagadora e ventos fracos perto do chão. Agora, uma pesquisa recente está começando a esclarecer melhor o comportamento do vento na superfície, as variações de temperatura e o movimento de poeira, ajudando preparando futuras missões de pouso.

Liderada por Maxence Lefèvre, da Sorbonne, na França, a equipe usou os dados escassos disponíveis – como velocidades de vento próximas de 1 metro por segundo registradas pelas Venera – para criar um modelo regional detalhado. Em vez de tratar o planeta inteiro de forma uniforme, eles dividiram Vênus em zonas diferentes: terras altas, planícies, regiões tropicais e polos. Esse enfoque revelou padrões inesperados e surpreendentes.

Um dos achados mais interessantes é que os ventos regionais ajudam a estabilizar as temperaturas nas montanhas. No ciclo dia-noite de Vênus, que dura cerca de 117 dias terrestres, o solo se aquece durante o “dia? longo e esfria à noite por radiação infravermelha. Nas regiões tropicais, surgem ventos ascendentes (anabáticos) durante o dia, subindo as encostas aquecidas, e descendentes (catabáticos) à noite, descendo das alturas frias. Nos polos, o vento catabático flui constantemente para baixo. Nas terras altas, esses ventos descendentes se comprimem ao descer, aquecendo o ar por compressão adiabática – um processo semelhante ao que ocorre nas montanhas da Terra. Esse aquecimento compensa exatamente o resfriamento noturno, fazendo com que a temperatura varie menos de 1 Kelvin entre dia e noite nas regiões montanhosas. Já nas planícies baixas, sem esse efeito, a variação chega a cerca de 4 Kelvin.

Superfície de Vênus, vista pela sonda Venera 13. Crédito: Venera 13/Don P. Mitchell

Outro aspecto surpreendente é o transporte de poeira. Embora os ventos na superfície sejam lentos em comparação com os da Terra ou de Marte, a atmosfera densa de Vênus exige muita energia para movimentar as partículas. O modelo mostra que esses ventos conseguem levantar areia fina de até 75 micrômetros em certas áreas, como o planalto de Alpha Regio, perto do equador. Cerca de 45% dessa região pode ser afetada por tempestades de poeira que variam ao longo do dia, o que representa um desafio real para sondas que pretendem pousar ali.

Esses padrões mostram que Vênus não é um mundo estático e uniforme como se imaginava. Os ventos atuam como um regulador climático na superfície, influenciando temperatura e poeira de forma regional, algo parecido com os padrões meteorológicos da Terra, mas em condições extremas. O estudo, publicado em outubro de 2025 no Journal of Geophysical Research: Planets, é especialmente útil para planejar missões futuras, como a DaVINCI da NASA, que deve pousar em Alpha Regio, além de EnVision e Veritas. Entender melhor esses ventos, as variações térmicas e o risco de poeira ajuda a projetar equipamentos mais resistentes e a escolher locais de pouso mais seguros.

Essa pesquisa demonstra como, mesmo com dados limitados de décadas atrás, modelos inteligentes conseguem revelar segredos escondidos de Vênus, iluminando um pouco mais o ambiente hostil e fascinante desse planeta vizinho.


Publicado em 08/03/2026 00h06


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Estudo original:


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