Micróbios sobrevivem a impactos cósmicos: a possibilidade de vida viajando de marte para outros planetas

Ao recriar o violento choque do impacto de um asteroide, cientistas descobriram que uma bactéria notoriamente resistente pode sobreviver às forças esmagadoras que poderiam lançá-la para fora de Marte. A descoberta reforça a ideia de que a vida pode viajar de carona entre planetas após grandes colisões cósmicas. Imagem via NASA

doi.org/10.1093/pnasnexus/pgag018
Credibilidade: 989
#Marte 

A superfície de Marte e da Lua está cheia de crateras enormes, marcas deixadas por asteroides que colidiram violentamente com esses corpos celestes ao longo de bilhões de anos

Essas explosões não apenas mudaram a aparência dos planetas, mas também podem ter desempenhado um papel surpreendente na história da vida: lançar pedaços de rocha com microrganismos vivos para o espaço, permitindo que a vida viaje de um mundo para outro.

Essa ideia, conhecida como panspermia litosférica, sugere que, em colisões muito fortes, fragmentos da crosta planetária são ejetados com tanta velocidade que escapam da gravidade do planeta. Se esses fragmentos contiverem micróbios resistentes, eles poderiam vagar pelo espaço dentro da rocha protetora e, eventualmente, cair em outro planeta – como a Terra – trazendo consigo formas de vida de origem distante.

Para descobrir se isso é realmente possível, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, liderados pela estudante de engenharia mecânica Lily Zhao e pelo professor K. T. Ramesh, decidiram testar experimentalmente o que acontece com micróbios durante um impacto desses. Eles escolheram uma bactéria extraordinária chamada “Deinococcus radiodurans”, famosa por ser uma das criaturas mais duronas conhecidas. Ela sobrevive a doses de radiação milhares de vezes maiores do que matariam humanos, resiste a secura total, frio extremo e até vácuo espacial. Por isso, é considerada um modelo ideal para imaginar como vida poderia aguentar condições hostis em Marte ou durante uma viagem interplanetária.

No laboratório, a equipe simulou o choque brutal de um asteroide. Colocaram as bactérias entre duas placas de aço bem resistentes, formando uma espécie de sanduíche, e depois acertaram esse conjunto com uma terceira placa lançada a alta velocidade – até cerca de 480 km/h. Essa batida gerou ondas de pressão altíssimas, chegando a 3 gigapascals, o equivalente a 30 mil vezes a pressão atmosférica normal da Terra. Para comparação, a pressão no fundo da Fossa das Marianas, o ponto mais profundo dos oceanos, é apenas cerca de um décimo disso.

Os resultados foram impressionantes. Em pressões de 1,4 gigapascal, praticamente todas as bactérias sobreviveram sem nenhum dano visível nas células. Mesmo subindo para 2,4 gigapascals – um nível extremo “, cerca de 60% delas continuaram vivas. Algumas células mostraram membranas rompidas e danos internos, mas a estrutura reforçada da parede celular dessa bactéria parece ter feito a diferença, oferecendo uma proteção muito maior do que se imaginava antes.

Depois do impacto, os cientistas analisaram a atividade dos genes das sobreviventes. Descobriram que elas entraram rapidamente em “modo de emergência”: ativaram mecanismos de reparo do DNA e de outras estruturas celulares danificadas. Em poucas horas, priorizaram consertar o que foi afetado, demonstrando uma capacidade impressionante de recuperação após um trauma tão violento.

O estudo, publicado em 3 de março de 2026 na revista “PNAS Nexus”, mostra que microrganismos extremófilos como a “Deinococcus radiodurans” suportam forças muito mais intensas do que pesquisas anteriores indicavam. Isso fortalece bastante a hipótese de que vida microbiana poderia ser lançada de Marte durante impactos antigos e viajar pelo espaço protegida dentro de meteoritos. Sabemos que dezenas de meteoritos encontrados na Terra vieram de Marte – eles foram ejetados há milhões ou bilhões de anos e acabaram caindo aqui. Se algum deles carregasse micróbios viáveis, a transferência de vida entre planetas deixa de ser mera especulação e passa sendo uma possibilidade científica real.

Essa descoberta também nos faz refletir sobre a origem da própria vida na Terra. Talvez alguns dos primeiros microrganismos que habitaram nosso planeta tenham chegado em rochas marcianas, ou talvez a vida que possa existir (ou ter existido) em Marte tenha uma conexão ancestral com a nossa. As colisões cósmicas, que por muito tempo vimos apenas como eventos destrutivos, podem ter sido, ao mesmo tempo, pontes que conectaram mundos distantes e ajudaram a espalhar a vida pelo Sistema Solar.

Em resumo, experimentos como esse mostram os limites incríveis da resiliência biológica e abrem portas para repensarmos como a vida pode se mover pelo cosmos – não apenas por acaso, mas carregada pela força bruta de impactos que moldaram os planetas que conhecemos hoje.


Publicado em 04/03/2026 06h47


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Estudo original:


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