
Uma descoberta feita na Síria está questionando o que se pensava sobre o surgimento do alfabeto
Pequenos cilindros de argila, encontrados em uma tumba antiga e datados de cerca de 2400 a.C., trazem inscrições que parecem ser uma forma primitiva de escrita alfabética – algo que os pesquisadores consideram cerca de 500 anos mais antigo do que as evidências conhecidas até agora.
A história começou em 2004, durante escavações no sítio de Umm el-Marra, no norte da Síria, uma antiga cidade que ficava em uma posição estratégica, cruzando rotas comerciais importantes entre a Mesopotâmia e outras regiões. Arqueólogos das universidades Johns Hopkins e de Amsterdã, liderados por Glenn Schwartz e Hans Curvers desde 1994, exploravam uma necrópole de elite da Idade do Bronze Inicial. Esse complexo funerário, com tumbas bem preservadas de pessoas de alto status, é algo raro na região, pois tumbas assim geralmente eram saqueadas ao longo dos séculos.
Dentro de uma das tumbas mais intactas, a equipe encontrou seis esqueletos acompanhados de objetos valiosos: vasos de cerâmica, joias de prata e ouro, uma ponta de lança e outros itens que indicavam riqueza. Foi a assistente Elaine Sullivan, especialista em egiptologia, quem notou quatro pequenos cilindros de argila perto das cerâmicas. No começo, pareciam apenas pedaços de terra, mas ao olhar com mais cuidado, junto com Schwartz, ela viu que havia símbolos gravados neles.
Esses símbolos eram diferentes de tudo o que se conhecia na Síria daquela época, onde predominava a escrita cuneiforme, vinda da Mesopotâmia. Schwartz publicou desenhos preliminares em 2006 e, em 2010, sugeriu que poderiam ser uma escrita alfabética inicial. A ideia não chamou muita atenção de imediato, mas ganhou força em 2019, quando ele apresentou o material em uma conferência em Milão. Especialistas como Christopher Rollston e Madadh Richey concordaram com a interpretação. Análises por radiocarbono confirmaram a datação em torno de 2400 a.C.
Um dos cilindros traz a palavra “silanu”, que o semitista Ted Lewis identificou como um possível nome próprio. Como os cilindros são perfurados, os pesquisadores acreditam que serviam como etiquetas ou rótulos, presos por cordões a vasos, presentes ou outros objetos, talvez para indicar o conteúdo, a origem ou o dono. Sem uma tradução completa dos símbolos, ainda há especulação, mas a estrutura aponta para um sistema alfabético, em que cada sinal representa um som – algo bem mais simples que o cuneiforme ou os hieróglifos.
Até então, a escrita alfabética mais antiga conhecida era a proto-sinaítica, surgida por volta de 1800 a.C. no Egito e no Sinai, ligada a povos semitas. Antes disso, o alfabeto fenício, de cerca de 1050 a.C., era visto como o ponto de partida principal. Agora, esses cilindros sugerem que experimentos com alfabetos aconteceram bem antes e em um lugar diferente, no interior do Antigo Oriente Próximo.
Descobertas que mudam visões consolidadas levam tempo para serem aceitas pela comunidade científica. Como disse um dos especialistas, “descobertas que alteram paradigmas são aceitas gradualmente”. Novos achados parecidos podem ajudar a confirmar se isso realmente é o exemplo mais antigo de alfabeto. Por enquanto, esses pequenos objetos de argila abrem uma perspectiva fascinante sobre como a humanidade começou a registrar sons de forma direta e inovadora, transformando a comunicação para sempre.
Publicado em 04/02/2026 08h36
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