
doi.org/10.1126/sciadv.adx7205
Credibilidade: 989
#Arte rupestre
Ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México, mais precisamente no sudoeste do Texas e no norte do México, existe uma impressionante tradição de pinturas feitas em rochas que durou incríveis quatro mil anos
Pesquisadores descobriram que povos indígenas da região pintaram essas obras de arte entre aproximadamente 6 mil anos atrás até cerca de mil ou 1.400 anos atrás, o que equivale a cerca de 175 gerações consecutivas mantendo viva a mesma forma de expressão.
Essas pinturas, conhecidas como estilo Rio Pecos, são encontradas principalmente nas paredes de calcário dos cânions da região chamada Lower Pecos Canyonlands. O mais surpreendente é que, durante todo esse tempo enorme, o jeito de pintar e os temas quase não mudaram. Os artistas seguiam regras muito rígidas na ordem das cores, nos símbolos usados e na maneira de contar histórias, como se existisse um manual secreto passado de geração em geração.
Para os cientistas, essas imagens não são apenas desenhos bonitos: elas representam a “cosmovisão? desses povos, ou seja, toda a forma como eles entendiam o universo, a criação do mundo, o tempo, a vida e a morte. São verdadeiras narrativas visuais que contam mitos antigos e ensinam rituais sagrados. Algumas dessas pinturas são gigantescas, com mais de 30 metros de comprimento e 6 metros de altura, cheias de figuras de animais, pessoas e símbolos misteriosos, tudo feito com várias cores vibrantes.
Quem fez essas obras eram caçadores-coletores nômades, pessoas que viviam se deslocando, mas que tinham um conhecimento extremamente sofisticado do mundo espiritual. Apesar de mudarem ferramentas de pedra e técnicas de tecelagem ao longo dos milênios, a maneira de pintar e o significado das imagens permaneceram praticamente iguais, o que mostra o quanto essa visão de mundo era importante e forte para eles.

Os pesquisadores conseguiram datar as pinturas com precisão usando dois métodos diferentes de carbono-14 que nunca tinham sido combinados antes. Assim, tiveram certeza de que as obras realmente têm entre 6 mil e 1 mil anos de idade. Quando analisaram o conteúdo das pinturas, viram que os artistas sempre seguiam a mesma sequência ao aplicar as cores, mesmo separados por centenas ou milhares de anos.
O mais fascinante é que muitos elementos dessa cosmovisão antiga aparecem depois em civilizações maiores, como os astecas, e ainda estão vivos hoje em comunidades indígenas, por exemplo entre os huicholes do México. Para os povos indígenas atuais que visitam esses locais, as pinturas não são apenas imagens do passado: elas são consideradas seres vivos, ancestrais sagrados que continuam criando e cuidando do universo até hoje.

Esses murais podem ser o registro visual mais antigo que existe de uma mesma crença profunda sobre o cosmos, uma crença que atravessou milênios, influenciou grandes civilizações e ainda pulsa forte no coração dos povos originários das Américas. É como se, nas paredes dos cânions, estivesse guardada uma biblioteca gigante escrita por 175 gerações de artistas, contando histórias que nunca deixaram de fazer sentido.
Publicado em 30/11/2025 17h22
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