
doi.org/10.15184/aqy.2025.10237
Credibilidade: 989
#Peru
Há centenas de anos, alguém dedicou um enorme esforço para cavar milhares de buracos ao longo de uma estreita faixa no topo de uma colina nos contrafortes dos Andes, no sul do Peru
Essa estrutura, conhecida como Monte Sierpe, tem intrigado o mundo desde 1933, quando fotografias aéreas feitas por Robert Shippee, publicadas pela National Geographic Society, revelaram o local. Agora, arqueólogos acreditam estar mais próximos de desvendar quem construiu esses buracos e por quê.
Uma equipe liderada pelo arqueólogo Jacob Bongers, da Universidade de Sydney, na Austrália, analisou materiais vegetais encontrados dentro dos buracos e sugere que o local pode ter funcionado inicialmente como um mercado e, mais tarde, como um sistema de contabilidade. “Por que povos antigos cavariam mais de 5.000 buracos nas colinas do sul do Peru? Seriam jardins? Serviam para captar água ou tinham alguma função agrícola””, questiona Bongers. “Ainda não sabemos ao certo, mas novos dados nos deram pistas importantes e abriram caminho para teorias promissoras sobre o uso do local.”
Monte Sierpe é uma obra impressionante de engenharia paisagística. A faixa de buracos se estende por 1,5 quilômetro de comprimento e tem cerca de sete ou oito buracos de largura, totalizando aproximadamente 5.200 buracos escavados no solo, alguns reforçados nas laterais com pedras. Construir algo assim exigiu planejamento cuidadoso e muito tempo, o que leva às perguntas inevitáveis: quem fez isso e com qual propósito? Teorias já sugeriram desde cultivos agrícolas até a coleta de névoa.
Bongers e sua equipe partiram de estudos anteriores que propunham que o local era usado pelos incas como um sistema de tributação. Eles realizaram um extenso trabalho de campo, mapeando o sítio com drones e analisando amostras de sedimentos dos buracos para identificar quais materiais poderiam ter sido depositados ali e quando. Como o império inca chegou à região por volta de 1400 d.C., os pesquisadores presumiam que Monte Sierpe era um sítio inca. No entanto, antes dos incas, a cultura chincha habitava a região há séculos.
A datação por radiocarbono de carvão encontrado em um dos buracos revelou que ele foi depositado entre 1320 e 1405 d.C., o que sugere que o material é anterior à chegada dos incas. Fragmentos de cerâmica encontrados na superfície também corroboram essa linha do tempo. Isso indica que os chinchas provavelmente construíram e usaram o local muito antes da ocupação inca.
A descoberta mais significativa, segundo os pesquisadores, foi o conteúdo dos buracos. Uma análise microbotânica de sedimentos de 19 buracos revelou grãos de amido e pólen de milho, plantas da família Amaranthaceae (que inclui quinoa, espinafre, beterraba e acelga), Pooidae (uma subfamília de gramíneas que inclui cereais como aveia, trigo e cevada) e Cucurbita (abóbora). Além disso, foram encontrados materiais vegetais como junco e espécies de salgueiro, usados na fabricação de cestos. Esses resultados sugerem que os buracos continham plantas alimentícias, provavelmente armazenadas em cestos para transporte.

“Isso é muito intrigante”, diz Bongers. “Talvez fosse um mercado pré-inca, como uma feira livre. Sabemos que a população pré-hispânica da região era de cerca de 100.000 pessoas. É possível que comerciantes itinerantes, como mercadores marítimos e caravanas de lhamas, além de especialistas como agricultores e pescadores, se reunissem no local para trocar produtos locais, como milho e algodão.”
Imagens aéreas do sítio revelaram algo que não é tão evidente do solo: os buracos estão organizados em blocos que, segundo os pesquisadores, lembram surpreendentemente um khipu inca, um dispositivo de contagem feito de cordas com nós, encontrado no mesmo vale andino. Isso sugere que os incas, mais tarde, reutilizaram os buracos como um sistema de registro de tributos, garantindo que os impostos fossem coletados adequadamente.
“Esses buracos podem ser vistos como uma espécie de tecnologia social que reunia as pessoas e, posteriormente, tornou-se um sistema de contabilidade em larga escala sob o império inca”, explica Bongers. “Ainda há muitas perguntas: por que esse monumento existe apenas aqui e não em outras partes dos Andes? Seria Monte Sierpe uma espécie de “khipu de paisagem”? Estamos mais perto de entender esse lugar misterioso, e isso é muito empolgante.”
O próximo passo é realizar uma segunda fase de trabalho de campo para coletar mais amostras, datar outros buracos e estudar mais khipus locais, a fim de validar e aprofundar essas descobertas fascinantes.
Publicado em 10/11/2025 06h14
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